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22/07/2016

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O mais doloroso nem é saber que levas outra pessoa para a cama. Estou-me, se queres que te diga, realmente nas tintas para isso. O mais doloroso é saber que tens outros ombros para pousar a cabeça.
Fomos felizes tantas vezes, já te disse. E no entanto quando olho para trás entendo com nitidez que o que mais fica, o que mais nos fica, é a dificuldade e o que fizemos com ela. E foi aí, quando algo faltava, que nunca nos faltou nada. Quando dói o que não se consegue é só o amor que consegue.

O que junta as pessoas é aquilo que se consegue quando dói o que não se consegue.
Amar é também uma questão de confiança: da confiança que nos dá. Alguém que se sente amado, verdadeiramente amado, é alguém indestrutível. Sente em si uma força imparável, um herói por dentro de si. Contigo nada temia, contigo tudo era ultrapassável. Até que chegou a preguiça.
O que junta as pessoas é conseguir reagir quando chega a preguiça.
Fomos desaparecendo. Cada vez mais confortáveis e cada vez mais distantes. O conforto afasta, repele: integra. E o amor não é para ser integrado. E agora és de outra pessoa e eu não sou de ninguém. Talvez um dia consiga voltar a dormir com alguém, voltar a entregar o meu corpo a alguém. Mas as minhas lágrimas dificilmente deixarão de ser tuas.


Pedro Chagas  Freitas

03/01/2015

Sou eu que invento...



" Lhe concordo, doutor: sou eu que invento minhas doenças. Mas eu, velho e sozinho, o que posso fazer? Estar doente é a minha única maneira de provar que estou vivo. É por isso que frequento o hospital, vezes e vezes...[...] Mas nessa infinita fila de espera, me vem a ilusão de me vizinhar do mundo. Os doentes são a minha família, o hospital é o meu tecto e o senhor é o meu pai, pai de todos meus pais."

Mia Couto 
foto desconheço Autor

26/10/2014

Que só o orgasmo me rasgue...




Que só o orgasmo me rasgue a pele, que só o prazer me faça devoto fiel.
E que nada se passe para aquém de mim, e que eu seja o insano que vive sem fim.
E que todos os homens se abracem sem medo, e que beijar e amar jamais sejam segredo.
Que haja grito, gemido e esgar – e que eu nunca me canse de viver e gozar.
Que haja “vem”, “ama” e “sente” – e que todas as pessoas sejam pessoas e gente.


Pedro Chagas Freitas