O mais doloroso nem é saber que levas outra pessoa para a
cama. Estou-me, se queres que te diga, realmente nas tintas para isso. O mais
doloroso é saber que tens outros ombros para pousar a cabeça.
Fomos felizes tantas vezes, já te disse. E no entanto quando
olho para trás entendo com nitidez que o que mais fica, o que mais nos fica, é
a dificuldade e o que fizemos com ela. E foi aí, quando algo faltava, que nunca
nos faltou nada. Quando dói o que não se consegue é só o amor que consegue.
O que junta as pessoas é aquilo que se consegue quando dói o
que não se consegue.
Amar é também uma questão de confiança: da confiança que nos
dá. Alguém que se sente amado, verdadeiramente amado, é alguém indestrutível.
Sente em si uma força imparável, um herói por dentro de si. Contigo nada temia,
contigo tudo era ultrapassável. Até que chegou a preguiça.
O que junta as pessoas é conseguir reagir quando chega a
preguiça.
Fomos desaparecendo. Cada vez mais confortáveis e cada vez
mais distantes. O conforto afasta, repele: integra. E o amor não é para ser
integrado. E agora és de outra pessoa e eu não sou de ninguém. Talvez um dia
consiga voltar a dormir com alguém, voltar a entregar o meu corpo a alguém. Mas
as minhas lágrimas dificilmente deixarão de ser tuas.
Pedro Chagas Freitas



