Algum dia o poema será a buganvília
pendente deste muro da Calçada da Graça.
Produz uma semente que faz esquecer os jornais, o emprego e a família,
e além disso tudo atapeta o passeio alegrando quem passa.
Mas antes desse dia há-de secar a buganvília
e o varredor há-de levar as flores secas para o monturo.
Depois cairá o muro.
E como o tempo passa
mesmo contra a vontade,
também há-de acabar a Calçada da Graça
e o resto da cidade.
Então, quando nada restar, nem o pó de um sorriso
que é o mais leve de tudo que se pode supor,
será esse o momento de o poema ser flor,
mas já não é preciso
António Gedeão
18/03/2012
15/03/2012
Tudo o que faço ou medito
Tudo o que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.
Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço.
Fernando Pessoa
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.
Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço.
Fernando Pessoa
13/03/2012
Sete luas
Há noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas
Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.
Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.
Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.
Natália Correia
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas
Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.
Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.
Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.
Natália Correia
09/03/2012
Andei a ver de ti...
Andei a ver de ti em toda a parte
A marca dos teus pés nos areais
Mandei uma andorinha procurar-te
No silêncio azul das catedrais
Chamei pelo teu nome ás estrelas
E todas o teu nome repetiam
Até as margaridas mais singelas
Nasceram porque já te conheciam
Quem dera meu amor, poder cantar-te
Juntar na minha voz o que vivi
Porque em tudo o que vivo tu és parte
E toda a parte é uma ilusão de ti
Aldina Duarte
A marca dos teus pés nos areais
Mandei uma andorinha procurar-te
No silêncio azul das catedrais
Chamei pelo teu nome ás estrelas
E todas o teu nome repetiam
Até as margaridas mais singelas
Nasceram porque já te conheciam
Quem dera meu amor, poder cantar-te
Juntar na minha voz o que vivi
Porque em tudo o que vivo tu és parte
E toda a parte é uma ilusão de ti
Aldina Duarte
06/03/2012
Este lugar...
( …) e, todavia, faltam-me os teus olhos
para aceitar os contornos que o tempo devorou
na sua longa viagem. Porque também a nossa
viagem chegou ao fim – e aquilo que um dia
foi um ramo do mar é hoje apenas
mais um rio em cujas águas turvas se perturba
essa memória perfeita que guardei. (…)
Maria do Rosário Pedreira
para aceitar os contornos que o tempo devorou
na sua longa viagem. Porque também a nossa
viagem chegou ao fim – e aquilo que um dia
foi um ramo do mar é hoje apenas
mais um rio em cujas águas turvas se perturba
essa memória perfeita que guardei. (…)
Maria do Rosário Pedreira
05/03/2012
O perfume
O que sou? - O Perfume,
Dizem os homens. - Serei.
Mas o que sou nem eu sei...
Sou uma sombra de lume!
Rasgo a aragem como um gume
De espada: Subi. Voei. Onde passava, deixei
A essência que me resume.
Liberdade, eu me cativo:
Numa renda, um nada, eu vivo
Vida de Sonho e de Verdade!
Passam os dias, e em vão!
- Eu sou a Recordação;
Sou mais, ainda: a Saudade.
António Correia de Oliveira
03/03/2012
Sem título (diário)
Entrei no autocarro e, quando ia a comprar o bilhete, o cobrador mandou-me passar adiante. Obedeci e sentei-me, intrigado. O homem, se calhar, recebera de mim algum favor clínico e queria corresponder assim. O que eu não podia consentir de maneira nenhuma. E resolvi teimar. Só que, mal fiz menção de me erguer, alguém disse a meu lado:
- Hoje é o dia dos velhos…
E fiquei esclarecido.
Coimbra, 25 de Outubro de 1980
Miguel Torga
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