29/05/2012

As facas


AS FACAS

Quatro letras nos matam quatro facas
que no corpo me gravam o teu nome.
Quatro facas amor com que me matas
sem que eu mate esta sede e esta fome.

Este amor é de guerra. (De arma branca).
Amando ataco amando contra-atacas
este amor é de sangue que não estanca.
Quatro letras nos matam quatro facas.

Armado estou de amor. E desarmado.
Morro assaltando morro se me assaltas.
E em cada assalto sou assassinado.

Quatro letras amor com que me matas.
E as facas ferem mais quando me faltas.
Quatro letras nos matam quatro facas.

Manuel Alegre

21/04/2012

Nesta curva...

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O’Neil

10/04/2012

Eu quero morrer no mar...

Olha os meus olhos morena
porque a aventura é ficar
se a minha terra é pequena
eu quero morrer no mar.

Lençóis de algas e peixes
de barcos a menear
no dia em que tu me deixes
eu quero morrer no mar.

E se o negro é a tua cor
respirando devagar
depois de amor meu amor
que quero morrer no mar.

António Lobo Antun

31/03/2012

Os frescos...


Nunca acertou em nada, nem no filho que fez, umas ocasiões acompanhado, outras sem ninguém, a atrasar-se no pagamento dos quartos. A propósito de filhos o meu na Venezuela. Nunca escreveu. Para onde? Realmente do que este país precisa é de um governo forte, desde que o Salazar morreu não parámos de cair
- Estou muito doente
disse ele. Não emagrecera, pelo contrário, os remédios inchavam-no e, se não fosse o sorriso, não o reconhecia. O cabelo caíra-lhe e as mãos tornaram-se transparentes, hesitantes, de gestos custosos. Caminhava devagar, inclinado para a esquerda, ajudava um dos braços com o outro.
- E tu?
perguntou-me numa voz difícil, de sílabas alongadas, vindas de longe. E depois havia o problema do dinheiro, o subsídio não dava para os exames, as análises:
- Há três meses que não pago a renda da casa, qualquer dia despejam-me e se me despejarem para onde é que eu vou?
Não conseguia trabalhar, passava a maior parte do tempo deitado, fixando o tecto
- Já conheço o tecto de cor
e o sorriso de volta, sem alegria alguma, numa espécie de tique. Isto no corredor do hospital, no meio das pessoas. Cadeiras de rodas, macas, um homem com um olho tapado. Um sujeito esquelético numa maca, indiferente, com um balão de soro a pingar. Chovia nas janelas e as luzes, em lugar de brancas, cinzentas. Fevereiro não é um mês alegre. Vinha à consulta
- Saber como está a máquina, percebes?
(mais um sorriso)
na esperança que, mudando os comprimidos, a coisa melhore. A coisa era ele e não me cheirava que fosse melhorar. Isto de fatinho completo e gravata, com um cachecol a pingar-lhe do pescoço. Não lhe falei na mulher, é sempre má ideia falar nas mulheres: separações, divórcios, problemas, explicações embaraçadas, mentiras evasivas. Não trazia aliança, a que lhe conheci chamava-se Regina, trabalhava num infantário, não cuidava assim muito do aspecto. Mas a tentação foi mais forte
- A Regina?
ele, após uma pausa comprida
- A Regina
ele, após outra pausa comprida
- Voltou para Santarém de vez em quando telefona
e o facto de, de vez em quando, telefonar, animou-me um bocadinho: telefonar de vez em quando sempre é melhor que nada.
- Mas continuamos casados, que diferença me faz?
e o meu ânimo baixou de novo. A Regina em Santarém
- Com um tipo qualquer
informou ele, e tornou a sorrir:
- Eu a precisar dela e arranja um tipo qualquer
enquanto uma rapariga de bata passava por nós, a estalar os saltos dos sapatos no chão. Fitou-a a meia bandeira
- Olha, uma coisa assim fazia-me jeito
e aproveitou um novo sorriso para tossir um bocado.
- E tu?
interessou-se ele a guardar os restos da tosse no lenço.
- O costume, esclareci eu, umas ocasiões acompanhado outras sem ninguém. Por exemplo, agora, sem ninguém.
Olhámos um para o outro, olhámos para o chão, interroguei-o, do chão
- Lembras-te como nós éramos?
conseguiu dar-me uma cotovelada cúmplice na barriga
- Frescos
namoradas, complicações, sarilhos, uma colecta na rapaziada para um abortozinho discreto, famílias ameaçadoras, maçadas. Concordei
- Frescos
porém a época da frescura acabou depressa, empregos mal pagos, umas escritas ao serão na tentativa de equilibrar as contas, encontros melancólicos na cervejaria para recordar a frescura
- E a pedicura?
- E a da loja de móveis?
- E a que estava por conta de um gajo estabelecido?
todas desaparecidas, esfumadas no ar, ausentes, sobrava uma balconista de quando em quando, não sobrava nada.
- O que é que sobra agora?
segredei eu e ele
- Sobra isto
inchado, sem cabelo, a inclinar-se para a esquerda e, no entanto, uma luzinha na cara
- Tivemos a nossa dose não tivemos?
e tivemos a nossa dose, é verdade, umas bebedeiras, umas pensões baratas, Estrela das Avenidas, Hospedaria Nova Iorque, Pensão Estrela Polar, a polícia a expulsar-nos de tempos a tempos
- Andor, andor
a minha mãe
- Nem um bocadinho de juízo ao menos
o meu pai
- Do que este país precisa é de um governo forte
a afastar o cachorro com a bengala sem acertar no bicho. Nunca acertou em nada, nem no filho que fez, umas ocasiões acompanhado, outras sem ninguém, a atrasar-se no pagamento dos quartos. A propósito de filhos o meu na Venezuela. Nunca escreveu. Para onde? Realmente do que este país precisa é de um governo forte, desde que o Salazar morreu não parámos de cair. E agora ele e eu no hospital, um muito doente, o outro com uma mancha no pulmão, e o médico
- É preciso vigiar isso
a comparar radiografias
- Não pára de crescer, a mancha
a falar-me em operações com voz grave.
- Vive-se perfeitamente com um pulmão a menos
garantia
tenho pacientes assim com uma vida normal. E fomos frescos antigamente, pensar nisso consola. Consola? Ele a examinar-me
- Estás mais magro tu
a continuar
- Falta-te carne nas costas
a concluir
- Até danças no fato.
Se calhar danço no fato, não sei, mas quem repara? A rapariga de bata, a estalar os saltos dos sapatos, com certeza que não. Na Hospedaria Nova Iorque dormi uma tarde com uma italiana. Feia mas italiana. Pensava pedir-lhe dinheiro e foi ela quem me pediu a mim. Amoleci, tive pena, fiquei a zero. Ele:
- Lembras-te da italiana feia que te deixou os bolsos carecas?
Com o Salazar vivo nada disto acontecia, havia termos, educação. Ele, a estender-me a mão transparente
- Vou-me chegando para a consulta e eu vou-me chegando para a mancha, que remédio, envergonhado do meu fato, subitamente tão largo, envergonhado da italiana feia. Talvez o encontre, à saída, na paragem do autocarro, agarrados, como náufragos, ao varão. Em todo o caso resta o consolo de termos sido frescos, não é, uns copos, umas miúdas. Quis recordar o nome dele: não me veio. Fernando, João, Manuel? Tanto faz, agora. De qualquer maneira resta a consolação de termos tido algum sucesso no bairro. Chamavam-me o Brilhantinas, possuía uma cicatriz na bochecha. Talvez haja por lá alguém que ainda se lembre de mim. O Brilhantinas e o Cabeça de Goraz. Os frescos. Aí vão eles, coitados, com um resto de pinoquice nos olhos.

António Lobo Antunes

28/03/2012

Não posso...

Não posso
adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore

não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação.

António Ramos Rosa

26/03/2012

Requiem por mim...

 Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim.
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei.
E caísse de pé, num desafio
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.

Miguel Torga

18/03/2012

Poema da Boganvília

Algum dia o poema será a buganvília
pendente deste muro da Calçada da Graça.
Produz uma semente que faz esquecer os jornais, o emprego e a família,
e além disso tudo atapeta o passeio alegrando quem passa.

Mas antes desse dia há-de secar a buganvília
e o varredor há-de levar as flores secas para o monturo.
Depois cairá o muro.
E como o tempo passa
mesmo contra a vontade,
também há-de acabar a Calçada da Graça
e o resto da cidade.

Então, quando nada restar, nem o pó de um sorriso
que é o mais leve de tudo que se pode supor,
será esse o momento de o poema ser flor,
mas já não é preciso

António Gedeão