13/11/2012

Lisboa e Tejo e Tudo...

 
Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.
(...)
Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavoro...
samente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Álvaro de Campos

06/11/2012

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

Sophia de Mello Breyner Andresen

04/11/2012

esperar por ti


esperar por ti agora quando já todos me explicaram
como está completamente gasto o tempo das esperas
com telefonemas fora de hora recados fortuitos e
sinais desajustados
pode parecer daquelas coisas que fazíamos
quando há muitos anos as pessoas
olhavam para nós e repetiam meu deus
onde é que o mundo vai parar
(havia uma velha no jardim da parada
que dizia isto todas as manhãs mal nos via chegar
e tu murmuravas havemos
de convidá-la para o nosso casamento
e ríamos muito e tínhamos a certeza
de que viver era isso)

não importa hoje temos
outras maneiras de fugir e de resto
já morreram todos os que então
furiosamente nos vigiavam
embora possa ainda
haver quem nos reconheça e se espante
e invente presságios e vozes de oráculos
oumuito simplesmente destinos banais
adivinhados nas folhas do chá
e em surdina nos avise
que as rugas lavradas pelo tempo tornaram
demasiado inóspito o lugar
onde nos encontramos

mas eu já percorri muitos lugares em chamas
e esperar por ti agora é apenas
mais um longo corredor de mamórias regressadas
que se atravessa entre os nossos corpos
pelo meio de retratos desfocados com o sena ao fundo
e discos de vinil com velhas canções
que nunca partilhámos com mais ninguém

— até chegar ao lugar do amor subitamente desocupado
pronunciando devagar cada sílaba do nome
com que de mim nascias

Alice Vieira

21/10/2012

Não o Sonho

Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.

Manuel António Pina, in "Atropelamento e Fuga"

12/10/2012

"Acordo com o teu nome nos
meus lábios — amargo beijo

esse que o tempo dá sem
aviso a quem não esquece".

Maria do Rosário Pedreira

10/10/2012

"lembro-me da minha mão
pousada sobre a tua e esse instante está debaixo
da palavra solidão".

(josé luís peixoto)

03/10/2012

?

Às vezes, quando a noite vem caindo,
Tranquilamente, sossegadamente,
Encosto-me à janela e vou seguindo
A curva melancólica do Poente.

Não quero a luz acesa. Na penumbra,
...
Pensa-se mais e pensa-se melhor.
A luz magoa os olhos e deslumbra,
E eu quero ver em mim, ó meu amor!

Para fazer exame de consciência
Quero silêncio, paz, recolhimento
Pois só assim, durante a tua ausência,
Consigo libertar o pensamento.

Procuro então aniquilar em mim,
A nefasta influência que domina
Os meus nervos cansados; mas por fim,
Reconheço que amar-te é minha sina.

Longe de ti atrevo-me a pensar
Nesse estranho rigor que me acorrenta:
E tenho a sensação do alto mar,
Numa noite selvagem de tormenta.

Tens no olhar magias de profeta
Que sabe ler no céu, no mar, nas brasas...
Adivinhas... Serei a borboleta
Que vendo a luz deixa queimar as asas.

No entanto — vê lá tu!— Eu não lamento
Esta vontade que se impõe à minha...
Nem me revolto... cedo ao encantamento...
— Escrava que não soube ser Rainha!

Fernanda de Castro