24/02/2013

NOCTURNO


Como se fosses noite e me atirasses
 Uma corda de músculos e rosas.
 Como se fosses noite e me deixasses
 Deslumbrado com todas as sombras,
 Com todos os silêncios,
 Com todos os passeios de mãos dadas com o impossível,
 Com todos os minutos,
 Os lentos, os belos, os terríveis minutos
 Que se escoam com a angústia nas escadas.
 Como se fosses noite e acordasses
 Todos os olhares furtivos aos bancos vazios,
 Todos os passos hesitantes que ninguém segue
 Mas que deixam na rua deserta,
 Na cidade ausente,
 O arabesco triunfal dum arcanjo que passa,
 O rasto vitorioso dum condenado que dança,
 Rindo dos deuses que o julgaram.
 
Como se fosses noite e arrastasses
 O tule hierático e vermelho da cauda de todas as prostitutas
 Que desafiam o mistério, roçagando,
 A ganga de todos os operários
 Que sofrem o mistério, fumando,
 O cabeção ingénuo de todos os marujos
 Que sonham o mistério, ondulando,
 A renda esfarrapada, esvoaçante e preciosa de todos os invertidos
Que inventam o mistério, desesperando

 E a carne, o sangue,
 O cheiro a suor e a sono de todos os vadios,
 De todos os ladrões que dormem nas esquadras
 E têm o mistério, ousando!
Ah! Se tu fosses noite e me atirasses
 A um poço de membros e de raiva
 Onde plantas carnívoras crescessem
 E onde Deus - se existisse - talvez me abrisse os braços!
 
ARY DOS SANTOS

 

15/02/2013

Porque adias esta urgência


 Porque
não vens agora, que te quero
E adias esta urgência?
Prometes-me o futuro e eu desespero
O futuro é o disfarce da impotência.

Hoje, aqui, já, neste momento,
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento
O desejo o limite dos mortais.

Miguel Torga

13/02/2013

Quando eu me vestir de branco


Ouçam todos com atenção
 Porque este é um momento importante

Visto que agora ainda estou viva
 Parece não ter importância, … mas,
 Quando eu me vestir de branco dentro de mim
 Quando eu me fechar no sono profundo e voar por aí…
 Vão ver como foi importante pedir-vos este momento.

Quando eu morrer e deixarem de me ver rir e falar
 Não pensem que eu morri
 Não podem pensar que eu morri

Não me tapem os olhos nem a boca
 Não me embrulhem em roupas bonitas
 Não precisarei de nada
 Nem que chorem
 Deixem-me ir
 Está lá a liberdade esperando por mim
 Não impeçam que vá ter com ela

Não me afundem numa cova
 Não suporto não ter espaço à minha volta
 Não suporto sentir-me apertada
 Assim, tão deitada
 Assim, tão imóvel

Não me tapem a passagem
 Deixem-me sentir o sol
 Quero passear-me nas ondas
 Sentir o cheiro do mar

Cantem à minha volta
 Digam-me coisas simpáticas
 “Boa viagem” talvez

Podem despedir-se de mim…
 Afinal irei partir
 Vou encontrar o azul
 Molhar-me nas ondas do mar
 Transformem-me em cinzas e
 Deixem-me voar
 Porque eu não morri.

 Maria Da Conceição Malato

 

19/01/2013

José


 



E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão 
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

 

Carlos Drummond de Andrade

13/01/2013

Lembra-te


Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
 radiosas que abrimos
irão achando seu fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

MARIO CESARINY DE VASCONCELOS

11/01/2013


POEMA DA DESPEDIDA


Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal, 
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora 
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.

Mia Couto


 

10/01/2013

Sem título


Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? 
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. 
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. 
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. 

 
Miguel Esteves Cardoso