08/04/2013

Vamos ser velhos....


 

Vamos ser velhos ao sol nos degraus
da casa; abrir a porta empenada de
tantos invernos e ver o frio soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a horta
que o vizinho anda a tricotar e o vento
lhe desmancha de pirraça; deixar a
chaleira negra em redor do fogão para
um chá que nunca sabemos quando
será – porque a vida dos velhos é curta,
mas imensa; dizer as mesmas coisas
muitas vezes – por sermos velhos e por
serem verdade. Eu não quero ser velha

sozinha, mesmo ao sol, nem quero que
sejas velho com mais ninguém. Vamos
ser velhos juntos nos degraus da casa –
se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando voltar.

Maria do Rosário Pedreira

06/04/2013

?


«...Levantava-se de noite deambulando às escuras pela casa, tornando ainda mais negra a sua alma. E como se a casa respira-se, ouvia os seus suspiros e o seu choro abafado, enquanto bolçava os seus fantasmas pelos olhos tristes.

Nunca soube o que o queimava por dentro. Fiquei entaipada nos meus próprios silêncios, espelhando a sua dor no meu próprio corpo. Nunca chorámos os dois juntos. Nunca tivemos essa intimidade. O meu choro transbordava a norte, quando as suas lágrimas se derramavam a sul...»

In: Diário dos Infiéis
João Morgado *

21/03/2013

Passei toda a noite


Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela, 
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.  
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala, 
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.

Amar é pensar.

E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela. 
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.  
Quero só pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

alberto caeiro

 

 

10/03/2013

Se eu morrer de manhã


 

Se eu morrer de manhã

abre a janela devagar

e olha com rigor o dia que não tenho.

Não me lamentes. Eu não me entristeço:

ter tido a morte é mais do que mereço

se nem conheço a noite de que venho.

Deixa entrar pela casa um pouco de ar

e um pedaço de céu

- o único que sei.

Talvez um pássaro me estenda a asa

que não saber voar

foi sempre a minha lei.

Não busques o meu hálito no espelho.

Não chames o meu nome que eu não venho

e do mistério nada te direi.

Diz que não estou se alguém bater à porta.

Deixa que eu faça o meu papel de morta

pois não estar é da morte quanto sei.

Rosa Lobato de Faria

24/02/2013

NOCTURNO


Como se fosses noite e me atirasses
 Uma corda de músculos e rosas.
 Como se fosses noite e me deixasses
 Deslumbrado com todas as sombras,
 Com todos os silêncios,
 Com todos os passeios de mãos dadas com o impossível,
 Com todos os minutos,
 Os lentos, os belos, os terríveis minutos
 Que se escoam com a angústia nas escadas.
 Como se fosses noite e acordasses
 Todos os olhares furtivos aos bancos vazios,
 Todos os passos hesitantes que ninguém segue
 Mas que deixam na rua deserta,
 Na cidade ausente,
 O arabesco triunfal dum arcanjo que passa,
 O rasto vitorioso dum condenado que dança,
 Rindo dos deuses que o julgaram.
 
Como se fosses noite e arrastasses
 O tule hierático e vermelho da cauda de todas as prostitutas
 Que desafiam o mistério, roçagando,
 A ganga de todos os operários
 Que sofrem o mistério, fumando,
 O cabeção ingénuo de todos os marujos
 Que sonham o mistério, ondulando,
 A renda esfarrapada, esvoaçante e preciosa de todos os invertidos
Que inventam o mistério, desesperando

 E a carne, o sangue,
 O cheiro a suor e a sono de todos os vadios,
 De todos os ladrões que dormem nas esquadras
 E têm o mistério, ousando!
Ah! Se tu fosses noite e me atirasses
 A um poço de membros e de raiva
 Onde plantas carnívoras crescessem
 E onde Deus - se existisse - talvez me abrisse os braços!
 
ARY DOS SANTOS

 

15/02/2013

Porque adias esta urgência


 Porque
não vens agora, que te quero
E adias esta urgência?
Prometes-me o futuro e eu desespero
O futuro é o disfarce da impotência.

Hoje, aqui, já, neste momento,
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento
O desejo o limite dos mortais.

Miguel Torga

13/02/2013

Quando eu me vestir de branco


Ouçam todos com atenção
 Porque este é um momento importante

Visto que agora ainda estou viva
 Parece não ter importância, … mas,
 Quando eu me vestir de branco dentro de mim
 Quando eu me fechar no sono profundo e voar por aí…
 Vão ver como foi importante pedir-vos este momento.

Quando eu morrer e deixarem de me ver rir e falar
 Não pensem que eu morri
 Não podem pensar que eu morri

Não me tapem os olhos nem a boca
 Não me embrulhem em roupas bonitas
 Não precisarei de nada
 Nem que chorem
 Deixem-me ir
 Está lá a liberdade esperando por mim
 Não impeçam que vá ter com ela

Não me afundem numa cova
 Não suporto não ter espaço à minha volta
 Não suporto sentir-me apertada
 Assim, tão deitada
 Assim, tão imóvel

Não me tapem a passagem
 Deixem-me sentir o sol
 Quero passear-me nas ondas
 Sentir o cheiro do mar

Cantem à minha volta
 Digam-me coisas simpáticas
 “Boa viagem” talvez

Podem despedir-se de mim…
 Afinal irei partir
 Vou encontrar o azul
 Molhar-me nas ondas do mar
 Transformem-me em cinzas e
 Deixem-me voar
 Porque eu não morri.

 Maria Da Conceição Malato