Diga-se da rapariga que era incessantemente perseguida.
Pequena, mas sem haver mais perfeita, nem mais linda. Diga-se que se encontrava
há anos e anos apaixonada por alguém, que a amava com coração limpo, tremendo
quando a via, mas sem lhe mentir e sem se calar, por tratar-se dum homem
direito, com uma alma muito boa.
Diga-se dela o que disser, que acabará, um dia, por ser
verdade.
Nem ela fazia ideia do que fazia. Quando falava parecia
mensageira de si própria. Empertigava-se como se fosse porta-voz, de pernas
compridas e palavras curtas, como se estivesse a dar um recado que não lhe
apetecia dar.
Diga-se que não era fácil uma pessoa não se apaixonar, não
dar a vida por ela. O amor era a coisa que menos a impressionava. Deixava
qualquer pessoa amá-la. O que ela queria, diga-se em abono dela, era mais ser
aceite que ser amada. Amar é uma espécie de preguiça que toma conta da nossa
alma. Dispensa razões. Desculpa atitudes. Permite quase tudo.
E, no entanto, diga-se que muitos a aceitaram antes de
amá-la. No meu caso, que era vulgar, dum homem a quem só aconteceu o que estava
previsto, tornei-me amigo dela e tratei-a como um homem, por dois ou três dias
- os mais felizes da minha vida - antes de me despedir daquele dia-a-dia, de
palavras faladas por quem não costuma dizer nada - antes de me perder, de
cair-lhe no coração como mais uma gota de sangue.
Como tantos outros, apaixonei-me e ela afastou-se, triste
por ter trocado por simples amor os trabalhos difíceis da nossa amizade.
«Porque é que não tenho amigos? Porque é que todos vocês se
apaixonam sempre por mim?»
Era uma falta de respeito. Até eu percebia isso. Era a
mulher mais sozinha que eu conhecia.
Doida, mas dedicada, como se pertencesse às pessoas que a
preocupavam.
«O que é que hei-de fazer contigo» Estava sempre a fazer
esta pergunta.
Eu respondia sempre: «Casa comigo.» Salva um suicídio. Dá
esperança a uma geração. Cospe na cara da lógica. Confunde os peritos. Dá uma
abébia aos bisbilhoteiros.
«Casa comigo.» Vai contra o teu marido. Caga nos desígnios
de Deus.
Diga-se que não casou - nem pouco mais ou menos. Com ninguém
- valha-nos isso. Deu colo a quem chorava por ela, nem que fosse só um
bocadinho. Milhares de cabeças repousaram assim.
«Não fiques triste», dizia a rapariga. Tradução:«Não estás
sozinho». Se alguém insistia, ela perdia a paciência. Ou recuperava-a.
Dependia. Dependia do homem de ontem, da expectativa do dia seguinte…
«Casa com alguém!», disse-lhe eu por fim. «Com esse a quem
tu amas», acrescentei. «Esse!», respondeu tristemente. «Ou com esse que
acreditas ser quem te ama mais!». «Esse!», respondeu a rir.
A verdade é que nunca percebi porque é que não casou comigo.
Amava mais o outro, mas dava-se melhor comigo. Dava-se melhor com uns outros,
mas gostava mais um bocadinho de mim. «Gostava tanto de amar-te», dizia,
meio-arrependida, sem convencer um único centavo de mim. «mas o meu problema é
gostar tanto de ti…»
Comecei a odiá-la. Continuei a amá-la só porque era uma
coisa em que não podia interferir. Desde o dia em que abrimos os olhos e vemos
o rosto da nossa mãe, acho que o coração, por assim dizer, deixa de nos
pertencer. É um chato que nos comove. É um traidor. É um independente. É um
inquilino.
Diga-se que a rapariga, quando fugi dela, me telefonou duas
vezes, a dizer que tinha saudades de mim.
«Saudades.» Quero um tostão por cada vez que esta palavra é
profanada.
Saudades tenho eu dela. Se calhar, tão fortes que nem sequer
são no plural.
Procurei os outros como eu e tornei-me amigo deles.
Nunca ninguém teve coragem de dizer «Amo-a». Mas era a única
coisa que nos unia. «Viste-a?». «Eu vi-a no outro dia.» «Como é que ela estava?
Nenhum de nós respondia. A resposta era óbvia. Estava feliz. Feliz! Como é que
ela podia?
Diga-se que foi finalmente apanhada. Um homem houve, vindo
dos seus tempos antigos, que a apanhou. Mas eu duvido. Quanto a mim, foi ela
que se rendeu. Tenho para mim que mulher nenhuma, por muito amada, é
suficientemente perseguida. Prefere que um homem a persiga por mil quilómetros
e mil dias que mil homens a persigam durante um ano, pela mesma avenida acima.
Para mais - diga-se - era isso que me está na natureza, que
é fascinada e teimosa, capaz de se matar sem reparar que no momento anterior à
morte estava viva - era isso mesmo que eu queria. Não é pena?
Casou com outro. Eu também. Ambos nos divorciámos no dia
seguinte. Agora temos amantes diferentes e mal nos falamos. «Amo-te,
estúpida!», gritei-lhe no outro dia. E ela quase chorou: «Lá estúpida, sou…»
Antes de se ir embora, agarrou-me o braço e disse:
«Sempre gostei muito de ti…»
Não é coisa que se faça, diga-se. Atendendo a como a amo, é
inadmissível - nunca mais me telefonou e eu nunca mais a vi.
Esteve casada quatro dias. Todos os dias vejo o ex-marido,
drogado e velho, entregue ao seu destino. Dizem que vai morrer um dia destes.
Mas é a única pessoa que eu, em toda a minha vida, invejo.
«Sabes lá do que te safaste!» - era sempre o que ele me
dizia. «Tu és rico e feliz - tens namoradas lindas e amigos que nunca mais
acabam…» Comprava-lhe um whisky para poder invejá-lo ao pé de mim. Teria até
sido amigo dele se ele não acabasse sempre as nossas curtas conversas com a
frase: «Ela gostava muito de ti»
Diga-se, em abono da verdade e da minha miséria, que tudo indica
que sim.
Gostava, sim senhor. Eu, que tudo fiz para que ela me amasse
- as maiores maldades, as piores traições, os estratagemas mais rascas - de
forma tão cruel, persistente e sistemática que só um monstro podia passar por
cima disso tudo e continuar a gostar de mim.
Diga-se, por amor à verdade e verdade no amor, que deixei de
gostar dela por causa disso.
Amo-a, claro. Ainda hoje. Mas mais nada.
Miguel Esteves Cardoso, n'O Independente, 7 de Maio de 1993
(Doc. Criado por Margarida Trindade no grupo MEC)