27/06/2013


 
 Espero-a. Não consigo tocar em nada, o coração impaciente. No
 corpo da casa balanço o meu próprio corpo. Não há, de facto, li-
mites, nem para a cobardia nem para a audácia.
 Deserto este, a casa. Deserto. Apenas o odor impensável da água
 pura, o perfume do vazio, a descoberta por fazer, peregrinação
 dos olhos: contornos da luz, travessia de sombras, espécie de cis-
ne vogando na penumbra. Espero-a como se perguntasse ao mar
 pelo outro lado de mim. Relação. Círculo. Divisão. Fogueira. O
 tempo, o fóssil do futuro. Espero-a.
 A casa recolhe os últimos fios de luz. Filtra-os, borboletas de voo
 suave. Fibras. Tranças. As paredes expõem o grande quadro da
 nudez e o silêncio vem ocupar o espaço da luz, movendo-se. Do
 outro lado do vidro, chove, permanece chovendo. Sigo com o olhar
 uma gota, esse monumento ínfimo da criação, no seu caminho de
 fulgor para a morte, mensagem de há cem milhões de anos envia-
da ao coração. Pelos estreitos corredores do outono a água circula
 na memória. Nenhuma verdade é inteiramente verdade.
 
Joaquim Pessoa

15/06/2013

Carta a Fernando Pessoa


 
 Meu caro Fernando
 É de lodo e nódoa este país que vejo
 Babado e sabujo gastando-te o nome
 
 Despudoradamente
 Remexem-te a arca acordando os silêncios
 De todos os teus versos outrora negados
 E não deixam mais que descanses em paz
 Os ossos cansados e essa tua cirrose
 Tão laboriosamente bebida e consentida
 
 Desnudam-te a alma, as cartas, os sonhos
 E os desesperos que sozinho viveste
 Nas sombrias paredes de humílimos quartos
 Dissecando as contas que nunca pagaste
 
 Ávidos de nome, e para darem nas vistas
 Rasgam-te as ceroulas que nunca despiste
 Para a tua Ofélia que amaste demais
 E outorgam-te paixões individualistas
 E homo-fatais
 
 E certos ratos de bibliotecas pardas
 Exauridos de raiva e de ciúme indispostos
 Quase negam as quadras grandiosas e simples
 Com que o povo te lembra, te soletra e canta
 (tu que foste poeta para todos os gostos)
 
 Sequiosos de fama, e de dinheiro famintos
 Masturbam discursos sobre o teu passado
 E esfregam-se nas praias do teu frágil corpo
 Curvado à angústia de tanto desprezo
 E à febre de um sonho etilizado
 
 E tudo isto, Fernando, por que nunca te amaram
 Nem compreenderam que no verso mais triste
 Escuro ou sombrio que te acontecia
 Palpitava inteira, universal e pura
 A razão de ser da poesia
 
 Por uma vez, agora, levanta-te Fernando
 Levanta-te do túmulo e vem cuspir-lhes na cara
 O teu sorriso inquieto, descomunal e mudo
 Mesmo doente e bêbado
 Esclerótico e tudo
 
 
 Fernando Campos de Castro
 (in livro VIOLAÇÃO DA NOITE)

13/06/2013

Santo António

Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
... Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!


Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.


(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)


Adiante ... Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.


Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera...
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.


Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.


Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.


Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.


Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro título de glória,
Que nada em nossa vida dá ou traz
É haver sido tais quando aqui andámos,
Bons, justos, naturais em singeleza,
Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que há na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
Ó eterno rapaz.


(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.


És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas, ou não coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arraste
Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história,
Que foste tu, ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.


És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retrato, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.


És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vai alta a lua
Num plácido e legítimo recorte,
Atira risos naturais à morte,
E cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.


Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António —
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?

Fernando Pessoa

11/06/2013

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"Mitiga-se a dor quando te suspendo em memórias e fantasias de nós, mas se corro para me aninhar em ti, fica-me apenas o vazio do teu abraço.

 As minhas mãos, côncavas, acolhem-te no que me deste e é como segurar a água de um rio na palma da mão. Vais-te. Estou só. Cobre-me então o véu da melancolia”

 maria joão saraiva

10/06/2013

“Ninguém se conhece como nós nos conhecemos”.
Não há dois amantes que não gostem de afirmar isto,
de reconhecer isto, ou de recordar: “naquele dia
os nossos olhos disseram tanta coisa!”, como se ambos
fossem os escolhidos, as almas gémeas, os anjos que
dizem “nos meus sonhos eras assim, exactamente assim”.
Mas tu dizes “afinal não te conheço ao fim de tanto tempo,
ainda não sei na realidade quem tu és…”. Na vida,
acontecem-nos tantas coisas, estamos sempre atrasados
para uma consulta, damos desculpas, fingimos
todas as urgências, e às vezes perguntamos
“por que estou eu a fazer isto?”
Numa sala cheia de gente há sempre um estranho,
alguém que identificamos entre desconhecidos, e é nele
que destapamos o olhar ou tropeçamos desastradamente.
Não nos conhecemos, não nos conheceremos nunca,
não gostamos da maneira como nos tratamos
um ao outro
nem do modo como nos justificamos,
nem do silêncio que tecemos quando
já não queremos justificar seja o que for.
Ninguém se desconhece, meu amor,
como nós nos desconhecemos. E vês?
porque te chamo “meu amor” se não se pode amar
quem se desconhece, a ti, que nos meus sonhos
nunca foste “exactamente assim” e que na vida
não tinhas forçosamente de me encontrar, porque
o acaso existe, existe mesmo, e nós só estamos juntos
para provar que é mesmo assim.
Se não me preocupo contigo, não te amo.
E como se pode conhecer quem não se ama, alguém
que nunca foi aquela que é impossível
ver alguma vez partir sem perguntar: “O que fiz eu?
O que fiz eu? O que fiz eu?”.
O que nos diríamos se soubéssemos que era hoje
o nosso último dia de vida?
O que teríamos para nos dar?
Eu não consigo pensar. E tu, decerto,
não terás respostas. Nenhum de nós tem planos,
nenhum de nós consegue distinguir a verdade
de uma boa desculpa, provavelmente surpreendidos
pelo facto de ainda estarmos aqui, admitindo
apenas que o outro se está a aguentar
o melhor que pode.
Costumo rir-me nos funerais, apesar
de não ser essa a minha verdadeira intenção.
Todos nós fazemos coisas para as quais não temos
uma justificação imediata. E pensamos: “tenho de sair
daqui, tenho de portar-me bem e ser correcto”.
Está sempre alguém à porta para nos chamar à atenção.
Eu nem sequer me recordo do teu último beijo,
não me lembro já do teu cheiro nem
da roupa que vestias. Esse é o drama
das pequenas coisas, das coisas que
não nos atrevemos a dizer
e que nunca serão recordações.
No dia de hoje,
os nossos olhos já não dizem nada,
e o nosso corpo não festejará uma vez mais
o romper da primavera. É outono
nas palavras que trocamos. E é tão tarde
para prestar-te esta última homenagem.

Joaquim Pessoa

07/06/2013


 

 "Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte!
 O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu!
 Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também.
 Onde nada está tu habitas e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo.

 Dá-me alma para te servir e alma para te amar.
 Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.
 
 Torna-me puro como a água e alto como o céu.
 Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus
 propósitos.
 Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

 Minha vida seja digna da tua presença.
 Meu corpo seja digno da terra, tua cama.
 Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

 Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

 Senhor, protege-me e ampara-me.
 Dá-me que eu me sinta teu.
 Senhor, livra-me de mim.

Fernando Pessoa

31/05/2013


Diga-se da rapariga que era incessantemente perseguida. Pequena, mas sem haver mais perfeita, nem mais linda. Diga-se que se encontrava há anos e anos apaixonada por alguém, que a amava com coração limpo, tremendo quando a via, mas sem lhe mentir e sem se calar, por tratar-se dum homem direito, com uma alma muito boa.
 Diga-se dela o que disser, que acabará, um dia, por ser verdade.
 Nem ela fazia ideia do que fazia. Quando falava parecia mensageira de si própria. Empertigava-se como se fosse porta-voz, de pernas compridas e palavras curtas, como se estivesse a dar um recado que não lhe apetecia dar.
 Diga-se que não era fácil uma pessoa não se apaixonar, não dar a vida por ela. O amor era a coisa que menos a impressionava. Deixava qualquer pessoa amá-la. O que ela queria, diga-se em abono dela, era mais ser aceite que ser amada. Amar é uma espécie de preguiça que toma conta da nossa alma. Dispensa razões. Desculpa atitudes. Permite quase tudo.
 E, no entanto, diga-se que muitos a aceitaram antes de amá-la. No meu caso, que era vulgar, dum homem a quem só aconteceu o que estava previsto, tornei-me amigo dela e tratei-a como um homem, por dois ou três dias - os mais felizes da minha vida - antes de me despedir daquele dia-a-dia, de palavras faladas por quem não costuma dizer nada - antes de me perder, de cair-lhe no coração como mais uma gota de sangue.
 Como tantos outros, apaixonei-me e ela afastou-se, triste por ter trocado por simples amor os trabalhos difíceis da nossa amizade.
«Porque é que não tenho amigos? Porque é que todos vocês se apaixonam sempre por mim?»
Era uma falta de respeito. Até eu percebia isso. Era a mulher mais sozinha que eu conhecia.
 Doida, mas dedicada, como se pertencesse às pessoas que a preocupavam.
«O que é que hei-de fazer contigo» Estava sempre a fazer esta pergunta.
 Eu respondia sempre: «Casa comigo.» Salva um suicídio. Dá esperança a uma geração. Cospe na cara da lógica. Confunde os peritos. Dá uma abébia aos bisbilhoteiros.«Casa comigo.» Vai contra o teu marido. Caga nos desígnios de Deus.
 Diga-se que não casou - nem pouco mais ou menos. Com ninguém - valha-nos isso. Deu colo a quem chorava por ela, nem que fosse só um bocadinho. Milhares de cabeças repousaram assim.

«Não fiques triste», dizia a rapariga. Tradução:«Não estás sozinho». Se alguém insistia, ela perdia a paciência. Ou recuperava-a. Dependia. Dependia do homem de ontem, da expectativa do dia seguinte…
«Casa com alguém!», disse-lhe eu por fim. «Com esse a quem tu amas», acrescentei. «Esse!», respondeu tristemente. «Ou com esse que acreditas ser quem te ama mais!». «Esse!», respondeu a rir.
 A verdade é que nunca percebi porque é que não casou comigo. Amava mais o outro, mas dava-se melhor comigo. Dava-se melhor com uns outros, mas gostava mais um bocadinho de mim. «Gostava tanto de amar-te», dizia, meio-arrependida, sem convencer um único centavo de mim. «mas o meu problema é gostar tanto de ti…»
Comecei a odiá-la. Continuei a amá-la só porque era uma coisa em que não podia interferir. Desde o dia em que abrimos os olhos e vemos o rosto da nossa mãe, acho que o coração, por assim dizer, deixa de nos pertencer. É um chato que nos comove. É um traidor. É um independente. É um inquilino.
 Diga-se que a rapariga, quando fugi dela, me telefonou duas vezes, a dizer que tinha saudades de mim.
«Saudades.» Quero um tostão por cada vez que esta palavra é profanada.
 Saudades tenho eu dela. Se calhar, tão fortes que nem sequer são no plural.
 Procurei os outros como eu e tornei-me amigo deles.
 Nunca ninguém teve coragem de dizer «Amo-a». Mas era a única coisa que nos unia. «Viste-a?». «Eu vi-a no outro dia.» «Como é que ela estava? Nenhum de nós respondia. A resposta era óbvia. Estava feliz. Feliz! Como é que ela podia?
 Diga-se que foi finalmente apanhada. Um homem houve, vindo dos seus tempos antigos, que a apanhou. Mas eu duvido. Quanto a mim, foi ela que se rendeu. Tenho para mim que mulher nenhuma, por muito amada, é suficientemente perseguida. Prefere que um homem a persiga por mil quilómetros e mil dias que mil homens a persigam durante um ano, pela mesma avenida acima.

 Para mais - diga-se - era isso que me está na natureza, que é fascinada e teimosa, capaz de se matar sem reparar que no momento anterior à morte estava viva - era isso mesmo que eu queria. Não é pena?
 Casou com outro. Eu também. Ambos nos divorciámos no dia seguinte. Agora temos amantes diferentes e mal nos falamos. «Amo-te, estúpida!», gritei-lhe no outro dia. E ela quase chorou: «Lá estúpida, sou…»
Antes de se ir embora, agarrou-me o braço e disse:
«Sempre gostei muito de ti…»
Não é coisa que se faça, diga-se. Atendendo a como a amo, é inadmissível - nunca mais me telefonou e eu nunca mais a vi.
 Esteve casada quatro dias. Todos os dias vejo o ex-marido, drogado e velho, entregue ao seu destino. Dizem que vai morrer um dia destes. Mas é a única pessoa que eu, em toda a minha vida, invejo.
«Sabes lá do que te safaste!» - era sempre o que ele me dizia. «Tu és rico e feliz - tens namoradas lindas e amigos que nunca mais acabam…» Comprava-lhe um whisky para poder invejá-lo ao pé de mim. Teria até sido amigo dele se ele não acabasse sempre as nossas curtas conversas com a frase: «Ela gostava muito de ti…»
Diga-se, em abono da verdade e da minha miséria, que tudo indica que sim.
 Gostava, sim senhor. Eu, que tudo fiz para que ela me amasse - as maiores maldades, as piores traições, os estratagemas mais rascas - de forma tão cruel, persistente e sistemática que só um monstro podia passar por cima disso tudo e continuar a gostar de mim.
 Diga-se, por amor à verdade e verdade no amor, que deixei de gostar dela por causa disso.
 Amo-a, claro. Ainda hoje. Mas mais nada.
 Miguel Esteves Cardoso, n'O Independente, 7 de Maio de 1993.
 (Doc. Criado por Margarida Trindade no grupo