Amar-te, é escrever-te.
Amar-te é deixar que me toques até ser teu,
até que te deites no meu corpo e adormeças
inteira dentro de mim.
Peço-te. Não pises as violetas que trago no olhar.
Cheiram a ti. São para ti.
Um "bouquet" de palavras que floriram
neste tempo de amor.
Joaquim Pessoa
19/02/2014
12/01/2014
?
Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.
Das tuas coxas pode ver-se a Lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua.
Manuel Alegre
11/01/2014
Se eu morrer...
Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.
Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a morte é mais do que mereço...
se nem conheço a noite de que venho.
Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
- o único que sei.
Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.
Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.
Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.
Rosa Lobato de Faria
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.
Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a morte é mais do que mereço...
se nem conheço a noite de que venho.
Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
- o único que sei.
Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.
Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.
Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.
Rosa Lobato de Faria
31/10/2013
Olhar para ontem
Não
vale a pena falarmos, para quê, quanto mais falamos mais a gente se magoa um ao
outro, fomo-nos distanciando tanto com o tempo, sinceramente nunca imaginei que
isto acontecesse, não era assim ao princípio mas nunca é assim ao princípio, as
coisas começam a correr mal devagarinho, não damos conta e nisto, de repente,
tão longe um do outro, linguagens diferentes, falta de paciência, silêncios que
magoam, frases a que não se responde, uma irritação surda, uma impaciência que
se tenta disfarçar sem a conseguir disfarçar totalmente, um desconforto mudo
mas presente, cada vez mais presente, uma espécie de enjoo, uma espécie de
desgosto, o que faço aqui, o que fazes aqui, qual o motivo de continuarmos
juntos se não faz sentido, qual o motivo de teimarmos ainda? Se ao menos
houvesse alguma coisa que pudéssemos tentar, tu e eu, sentarmo-nos os dois no
mesmo sofá, nem que não conversássemos, sentarmo-nos apenas, um ao lado do
outro, tu a veres televisão, por exemplo, há aquela novela brasileira que
gostas, e eu a olhar para ontem, sempre foi a minha especialidade, olhar para
ontem, e permanecermos assim uma hora ou duas, em paz, pode ser que sejamos
capazes de encontrar alguma paz, o que é que achas, não estou muito seguro
disso mas sei lá, existem surpresas, voltarmos a habituar-nos um ao outro,
devagarinho, e tirar prazer disso, pelo menos algum, ainda que pequeno, prazer
disso ou, pelo menos, uma ausência de desprazer, o que já não seria mau,
pergunto-me se ainda gostamos um do outro e, sinceramente, não conheço a
resposta, penso que não, penso que sim, penso que um bocadinho, lá ao fundo,
sob o tédio, o ressentimento, o cansaço, porque tanto tédio, tanto
ressentimento, tanto cansaço, se mudasses de penteado, se comprasses uns
vestidos novos, se usasses saltos mais altos, se me surpreendesses, tornámo-nos
tão quotidianos, meu Deus, tão monótonos, não dizes nenhuma coisa que me
interesse, não digo nenhuma coisa que te interesse e não é possível não
dizermos nunca seja o que for que não interesse o outro havendo pessoas que nos
acham divertidos, cultos, se calhar fascinantes, o Carlos, por exemplo, acha-te
fascinante, o cretino.
-
A Amélia é fascinante
aquela
tua amiga das saias curtas considera-me o máximo que bem lhe percebo nos olhos,
fica de cigarro apagado, feita estátua, a mirar-me e não seria idiota tu
inclinares-te para o Carlos e eu para a tua amiga, bastava passarem uns meses
para nos fartarmos deles, tanto fascínio e tanta estátua cansam, e daí, quem
sabe, não, deixemo-nos de fantasias, tanto fascínio e tanta estátua cansam
mesmo, olhemos as coisas de frente, sem infantilidades, cansam mesmo, a questão
importante, quer dizer, a única questão realmente importante, é saber se nos
cansámos um do outro, do Carlos e da tua amiga podemos, ou não, ocupar-nos mais
tarde, no que me diz respeito é não, no que te diz respeito suponho que também,
e se a gente voltasse, ou antes, se a gente tentasse voltar a namorar, não sei
se sou capaz, não sabes se és capaz, calculo eu, mas o que se perde em tentar,
um namoro tímido, lento, envergonhado ao princípio mas que vai crescendo,
crescendo, ainda não somos velhos, ainda não desistimos de ser felizes, pois
não, o que te parece sermos felizes um com o outro, um beijo aqui, um beijo
ali, uma palmadinha no rabo que, se calhar, excita, uma ida ao cinema, um fim
de semana fora, num hotel qualquer perto do mar, se não for muito caro podemos,
ouvir as ondas no escuro, da cama, enquanto nós, não faças essa cara, enquanto
nós tal e coiso, há quantos meses nós não tal e coiso, nós não nada, tu de
camisa de dormir transparente, eu, para variar, sem peúgas, se me permites uma
confissão, perdoa ser atrevido, acho, como exprimir-me, acho que, não leves a
mal, acho que continuo a, palavra de honra, amar-te, isto é a sério, não é da
boca para fora, não é assim no ar, acho que continuo a amar-te e, desculpa a
presunção, atrevo-me a pensar que continuas a amar-me, se estiver enganado não
hesites em dizer que eu aguento, no ponto em que as coisas estão aguento tudo,
mesmo esse telefone a tocar agora que não convinha nada que tocasse e tu
-
Carlos
sem
ouvires o que eu digo, tu, de olhos fechados
-
Carlos
tu
a sorrires sem ser para mim
-
Quando?
tu
-
Este fim de semana acho que posso, sim
tu
-
Um hotel em Madrid adorava
tu
-
O meu marido
tu
-
Há séculos que esse deixou de conta
tu
tu
-
Estou pronta às três
tu
-
Buzina da rua que eu desço
tu
-
Agora não posso falar muito
tu
-
Às três horas tenho a mala à porta
e,
se às três horas tens a mala à porta, talvez me possas fazer o favor de deixar
escrito aí, num papel, o número da tua amiga das saias curtas que, de certeza,
há-de gostar de acordar comigo em Barcelona.
António
Lobo Antunes
da
Revista Visão
20/10/2013
Dia 61.
Atravessei o buraco da agulha. Do outro lado,
um mundo surpreendente. Nem freguesias, nem distritos, nem países, sequer.
Quero dizer, não há nações. E não há discursos, nem propaganda. Os pobres não
são pobres, porque não há ricos. Há coragem. E conta muito a opinião dos
outros. Ninguém conhece o roubo. Não há polícias, existem apenas pessoas que se
respeitam e acreditam. E confiam. E há sempre respostas para as perguntas. Não
há necessidade de provedores nem reguladores nem promotores públicos. As
fechaduras têm como função evitar que as portas batam e os Bancos têm como
função evitar que, pontualmente, as pessoas tenham dificuldades. O trabalho é
organizado conforme as aptidões de cada um e o ensino regulado pelos que sabem
ensinar. Os salários são justos e suficientes. Assim como os impostos. Os
museus estão cheios de visitantes. Ninguém deixa de pagar o que pede emprestado
e o governo democraticamente eleito é constituído pelos cidadãos mais
competentes em cada área. A sua primeira preocupação é a qualidade de vida dos
cidadãos. Há um Ministério do Amor. E um coeso Sindicato de escritores,
artistas e músicos. Não se utilizam recibos verdes, nem azuis, nem de qualquer
outra cor. Foram extintas as armas, banidas as guerras. Desconhece-se a
corrupção e ninguém parece saber o que são as drogas. O mercado é transparente,
as acções são de valor firme porque são as imputadas ao valor moral de cada
cidadão. A única violência conhecida é a da natureza. E Deus já não é preciso.
Fez, bem feito, o que pôde e o que soube, e deixou o restante entregue à
capacidade dos homens. Se quiserem atravessar também o buraco da agulha,
inscrevam-se. Quem ainda não souber assinar, faça uma cruz.
Joaquim Pessoa
19/10/2013
Ausência
Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
Ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
Magoa, que se limita à alma, mas que não
deixa,
Por isso, de deixar alguns sinais - um peso
Nos olhos, no lugar da tua imagem, e
Um vazio nas mãos, como se tuas mãos lhes
Tivessem roubado o tacto. São estas as formas
Do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
As coisas simples também podem ser
complicadas,
Quando nos damos conta da diferença entre o
sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz à tua memória; e
a
Realidade aproxima-me de ti, agora que
Os dias que correm mais depressa, e as
palavras
Ficam presas numa refracção de instantes,
Quando a tua voz me chama de dentro de
Mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
Como dizer que a tua ausência me dói.
Nuno Júdice
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