Não
vale a pena falarmos, para quê, quanto mais falamos mais a gente se magoa um ao
outro, fomo-nos distanciando tanto com o tempo, sinceramente nunca imaginei que
isto acontecesse, não era assim ao princípio mas nunca é assim ao princípio, as
coisas começam a correr mal devagarinho, não damos conta e nisto, de repente,
tão longe um do outro, linguagens diferentes, falta de paciência, silêncios que
magoam, frases a que não se responde, uma irritação surda, uma impaciência que
se tenta disfarçar sem a conseguir disfarçar totalmente, um desconforto mudo
mas presente, cada vez mais presente, uma espécie de enjoo, uma espécie de
desgosto, o que faço aqui, o que fazes aqui, qual o motivo de continuarmos
juntos se não faz sentido, qual o motivo de teimarmos ainda? Se ao menos
houvesse alguma coisa que pudéssemos tentar, tu e eu, sentarmo-nos os dois no
mesmo sofá, nem que não conversássemos, sentarmo-nos apenas, um ao lado do
outro, tu a veres televisão, por exemplo, há aquela novela brasileira que
gostas, e eu a olhar para ontem, sempre foi a minha especialidade, olhar para
ontem, e permanecermos assim uma hora ou duas, em paz, pode ser que sejamos
capazes de encontrar alguma paz, o que é que achas, não estou muito seguro
disso mas sei lá, existem surpresas, voltarmos a habituar-nos um ao outro,
devagarinho, e tirar prazer disso, pelo menos algum, ainda que pequeno, prazer
disso ou, pelo menos, uma ausência de desprazer, o que já não seria mau,
pergunto-me se ainda gostamos um do outro e, sinceramente, não conheço a
resposta, penso que não, penso que sim, penso que um bocadinho, lá ao fundo,
sob o tédio, o ressentimento, o cansaço, porque tanto tédio, tanto
ressentimento, tanto cansaço, se mudasses de penteado, se comprasses uns
vestidos novos, se usasses saltos mais altos, se me surpreendesses, tornámo-nos
tão quotidianos, meu Deus, tão monótonos, não dizes nenhuma coisa que me
interesse, não digo nenhuma coisa que te interesse e não é possível não
dizermos nunca seja o que for que não interesse o outro havendo pessoas que nos
acham divertidos, cultos, se calhar fascinantes, o Carlos, por exemplo, acha-te
fascinante, o cretino.
-
A Amélia é fascinante
aquela
tua amiga das saias curtas considera-me o máximo que bem lhe percebo nos olhos,
fica de cigarro apagado, feita estátua, a mirar-me e não seria idiota tu
inclinares-te para o Carlos e eu para a tua amiga, bastava passarem uns meses
para nos fartarmos deles, tanto fascínio e tanta estátua cansam, e daí, quem
sabe, não, deixemo-nos de fantasias, tanto fascínio e tanta estátua cansam
mesmo, olhemos as coisas de frente, sem infantilidades, cansam mesmo, a questão
importante, quer dizer, a única questão realmente importante, é saber se nos
cansámos um do outro, do Carlos e da tua amiga podemos, ou não, ocupar-nos mais
tarde, no que me diz respeito é não, no que te diz respeito suponho que também,
e se a gente voltasse, ou antes, se a gente tentasse voltar a namorar, não sei
se sou capaz, não sabes se és capaz, calculo eu, mas o que se perde em tentar,
um namoro tímido, lento, envergonhado ao princípio mas que vai crescendo,
crescendo, ainda não somos velhos, ainda não desistimos de ser felizes, pois
não, o que te parece sermos felizes um com o outro, um beijo aqui, um beijo
ali, uma palmadinha no rabo que, se calhar, excita, uma ida ao cinema, um fim
de semana fora, num hotel qualquer perto do mar, se não for muito caro podemos,
ouvir as ondas no escuro, da cama, enquanto nós, não faças essa cara, enquanto
nós tal e coiso, há quantos meses nós não tal e coiso, nós não nada, tu de
camisa de dormir transparente, eu, para variar, sem peúgas, se me permites uma
confissão, perdoa ser atrevido, acho, como exprimir-me, acho que, não leves a
mal, acho que continuo a, palavra de honra, amar-te, isto é a sério, não é da
boca para fora, não é assim no ar, acho que continuo a amar-te e, desculpa a
presunção, atrevo-me a pensar que continuas a amar-me, se estiver enganado não
hesites em dizer que eu aguento, no ponto em que as coisas estão aguento tudo,
mesmo esse telefone a tocar agora que não convinha nada que tocasse e tu
-
Carlos
sem
ouvires o que eu digo, tu, de olhos fechados
-
Carlos
tu
a sorrires sem ser para mim
-
Quando?
tu
-
Este fim de semana acho que posso, sim
tu
-
Um hotel em Madrid adorava
tu
-
O meu marido
tu
-
Há séculos que esse deixou de conta
tu
-
A que horas?
tu
-
Estou pronta às três
tu
-
Buzina da rua que eu desço
tu
-
Agora não posso falar muito
tu
-
Às três horas tenho a mala à porta
e,
se às três horas tens a mala à porta, talvez me possas fazer o favor de deixar
escrito aí, num papel, o número da tua amiga das saias curtas que, de certeza,
há-de gostar de acordar comigo em Barcelona.
António
Lobo Antunes
da
Revista Visão