05/12/2014
Toma-me, noite...
Se vens à minha procura,
eu aqui estou. Toma-me, noite,
sem sombra de amargura,
consciente do que dou.
Nimba-te de mim e de luar.
Disperso em ti serei mais teu.
E deixa-me derramado no olhar
de quem já me esqueceu.
Eugénio de Andrade
04/12/2014
Um Amor
Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois,
na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares
ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.
Nuno Júdice
Ânsia
Não me deixem tranquilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma
As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo
Desvio dos teus ombros...
Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
David Mourão-Ferreira
03/12/2014
Abraço tem que ter...
Abraço tem que ter pegada, jeito, curva.
Aperto suave, que pode virar colo.
Alento tenso, que pode virar despedida.
Abraço não pode ser rápido senão é empurrão.
Abraço é para atravessar o nosso corpo.
Ir para a margem oposta.
Abraço é confissão.
Fabrício Carpinejar
02/12/2014
Já...
já não é hoje ?
não é aquioje?
já foi ontem?
será amanhã?
já quandonde foi?
quandonde será?
eu queria um jàzinho que fosse
aquijá
tuoje aquijá.
Alexandre O’Neil
01/12/2014
Ela, sòzinha....
"Ela sozinha, ela independente, ela livre, professora
numa faculdade ou isso, a sombra do sorriso de dantes aguentava-se, as covinhas
também, mas a gordura, as rugas, o cabelo, as sardas nas costas da mão, quem te
deu licença de te tornares assim, quem me deu licença de me tornar assim, o que
vale aquilo que somos agora, o que podemos fazer"
Passados muitos anos ela disse-lhe
- Sempre gostei de ti, sabias?
e ele espantado: nem sonhava, era muito novo, quinze ou
dezasseis anos, não reparava nessas coisas. Ficou a olhá-la, sem acreditar
- A sério?
e o que via era uma senhora de cinquenta anos que engordara,
ganhara rugas, pintava o cabelo, mantinha, quando muito, uma sombra do sorriso
de dantes no sorriso de agora, as mesmas covinhas nas bochechas, os mesmos
olhos redondos mas com pálpebras diferentes, pregas injustas no pescoço, essas
sardas que, a partir de certa altura, começam a aparecer nas costas das mãos,
pernas espessas, sem tornozelos, onde pernas estreitas dantes, a cintura
substituída por um relevo redondo. Espantou-se também com isso, com a crueldade
das mudanças dela, esquecido, por instantes, da crueldade das mudanças dele, o
cabelo ralo, os óculos, a cicatriz da operação a uma coisa na pele a que
torceram o nariz no hospital e, no entanto, correu bem, ficou o lábio um
bocadinho repuxado, ficou uma órbita mais redonda do que a outra, mas agora só
precisava que o vissem de ano a ano
- Teve muita sorte
e ele grato à sorte às vezes, outras nem por isso, ao pensar
- No fundo qual é a piada de estar vivo?
e a arrepender-se logo da frase, não fosse o destino tomá-lo
à letra e mandar-lhe outra coisa na pele ou noutro sítio qualquer, o que não
falta numa pessoa são sítios para as doenças, a quantidade de tralha que a
gente tem cá dentro. E agora, de repente, salta-lhe do passado, sem mais nem
menos, aquela rapariga
(rapariga?)
com uma pergunta que o deixou banzo
- Sempre gostei de ti, sabias?
ele que tinha a certeza que ela nem reparava, a cochichar
com as amigas, toda segredos e alegrias, na sua ideia indiferente a ele,
indo-se embora sem o olhar sequer. Lembrou-se de uma ocasião lhe terem deixado
uma prata de chocolate azul no livro de Geografia, de se demorar na prata a
pensar - Quem meteu isto aqui?
saltou-lhe, quase sem querer
- Foste tu quem meteu uma prata de chocolate no meu livro de
Geografia?
e a rapariga à sua frente
(rapariga?)
a corar, que estranho como, apesar da idade, as mulheres
ainda coram, ainda apertam os dedos uns nos outros, ainda perguntam
- A sério que nunca deste por nada?
e claro que nunca deu por nada, acabou por deitar a prata
fora, que patetice, ele com uma vontade súbita de reaver a prata, tirá-la da
carteira, por exemplo, e mostrar-lha
- Olha
e ela mais corada ainda, apertando mais os dedos uns nos
outros, erguendo um ombro, ela enternecida, quase à beira das lágrimas que se
percebia pela tremura das pálpebras, ela, feliz
- Obrigada
porque afinal ainda existia, ainda era nova, ainda tinha
esperança, ela divorciada
- Há séculos
um neto com dois anos do filho emigrado na Holanda
- Casou com uma holandesa, é engenheiro
e portanto ela sozinha, ela independente, ela livre,
professora numa faculdade ou isso, a sombra do sorriso de dantes aguentava-se,
as covinhas também, mas a gordura, as rugas, o cabelo, as sardas nas costas da
mão, quem te deu licença de te tornares assim, quem me deu licença de me tornar
assim, o que vale aquilo que somos agora, o que podemos fazer, ela
- E se a gente almoçasse um dia destes?
ele a concordar com entusiasmo para dentro e, no entanto,
calado porque as pernas, porque os tornozelos, ela a compreender melhor do que
ele pensava
- Alterei-me muito, não foi?
e a tremura das pálpebras a aumentar, uma lágrima, desta
feita presente, a embaciar-lhe o sorriso
- Sempre gostei de ti
a frase não jovial, trémula
- Sempre gostei de ti
a lágrima apanhada com o mindinho
- Interessa-me lá como tu és agora
não lhe interessava a ela como ele era agora mas
interessava-lhe a ele como ela era agora, meu Deus o que faço eu com o convite
do almoço, desculpou-se
- O melhor é dares-me o teu telefone e eu depois ligo
e não ligar, é evidente, sobretudo não ligar, gordura,
rugas, as raízes do cabelo grisalhas, nem pensar em ligar, para quê, para
sentir pena de si mesmo, para sentir pena dela, recebeu uma página de agenda
com um número escrito e enfiou-o na algibeira sem olhar para ele
- Assim que nos separarmos vai fora
não lhe entregou o seu, claro, cair numa asneira dessas nem
sonhar, ainda me chama mesmo e depois, separaram-se com um par de beijinhos
castos que ele desejaria mais rápidos e nem olhou para trás, quais cinquenta
anos, cinquenta e cinco no mínimo, que horror tudo isto, que pesadelo, que
estranho e, ao mesmo tempo as covinhas, o sorriso, os olhos redondos, que
lindos os olhos redondos porém agora as pálpebras diferentes e as sardas nas
costas das mãos, o que lhe repugnavam sardas nas costas das mãos, a avó dele
assim e o susto dela lhe tocar, ele a implorar calado
- Por favor não me toque, senhora
de maneira que amarrotou a página da agenda no bolso antes
de puxá-la para a deitar fora e só ao abrir discretamente
(era a favor da higiene nas ruas)
a palma para que a folha com o número caísse no chão reparou
que era uma prata de chocolate azul.
António Lobo Antunes
foto desconheço Autor
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