29/12/2014

Subir o Chiado...(excertos do livro Chiado meu Amor)



«Quando vou ao Teatro é para ver e ser vista!»

(Velha amiga da minha Avó)


Dobrou a esquina do Rossio para a rua do Carmo, e começou a subir o Chiado…
Subir o Chiado não é só ir da Baixa ao Camões, ao Largo Bordallo Pinheiro, ao Carmo, ao Chiado propriamente dito, ou até mesmo ir tomar a bica n’A Brasileira.
Subir o Chiado, para disfrutar da subida, tem muito mais que se lhe diga (…)
(…) Se for no inverno, e como eu sente o frio seco nas mãos (ah! estes Ilhéus…), tem logo ali, no início da subida, a Luvaria Ulisses para adquirir umas luvas.
Podem até ser gris perle, como tantas vezes o Eça referenciou nos seus livros. Repare bem no estabelecimento. Deve ser o mais pequeno do Mundo sem ser de vão de escada (…)
(…) Abrigado das mãos, continue no remanso da subida. Cruze a rua e admire as montras da Alliaud & Lellos e da Livraria Portugal. Além das novidades, há ali, principalmente, livros que dificilmente encontrará em outras livrarias.
Ao voltar para o outro lado da rua repare que o prédio em frente tem só rés-do-chão e sobreloja. É que, por detrás, fica aquilo que, em tempos, se chamava a Pedreira. Daí saiu muita da pedra que foi usada na construção do Convento do Carmo, que visitará mais adiante. (…)
(…) Depois, para retemperar forças, que tal um lanche na Ferrari? Já não é a mesma sala, um tanto ou quanto belle époque, mas o serviço continua impecável (…)
(…) Subamos então a Rua do Poeta, do Dramaturgo, do Político, do Dandy, do Garret (não se esqueça de pronunciar-lhe, pelo menos um “t” (…)
(…) Depois de, no Piccadilly comprar aquela gravata que procurava há tanto tempo, é difícil conseguir não parar, não entrar na Livraria Bertrand – o que havia de histórias para contar dessa esquina…
Com o livro sobre o que foi, o que é, e o que vai ser o Chiado, sob o braço, dê mais uns passos e entre na Basílica dos Mártires. Reconfortado do estômago, com leitura para uns dias, procure agora reconfortar a sua alma. Foi na Paróquia dos Mártires – não quer dizer nesta Igraja – que se administrou o primeiro baptismo depois da tomada de Lisboa aos Mouros, no ano de 1147 (…)
(…) Não estará agora na hora de tomar um café n’A Brasileira? Já não é o mesmo ambiente, mas o café é bom e ainda lá está aquele magnífico quadro do Hogan.
Logo ao lado do café ainda lá está, também, a Havaneza. Tabaco – cigarros, cigarrilhas, charutos, tabaco para cachimbo – é ali de confiança, é, aliás, uma tradição que se mantém. E tem também outras cousas para o tentarem ou para resolverem o problema da oferta, do presente que tem de dar.
Defronte mantém-se o Ramiro Leão cujo fundador oferecia, de quando em vez, n’A Brasileira um jantar aos Artistas que ali assentavam arraiais…
Antes de ser Ramiro Leão foi J. Martins & Filhos, Mercearias Finas, e era aí que Alexandre Herculano colocava o seu famoso azeite de Vale de Lobos. Bordallo, n’O Calcanhar de Aquiles, publicou uma magnífica caricatura representando, nessa esquina, Herculano com as suas vazilhas de azeite fazendo gaifonas aos basbaques encostados à montra da Havaneza.
Abastecido do seu tabaco, à saída da Havaneza pare e olhe em frente. Tem, face a si, uma Rua com três nomes: Paiva de Andrade, Largo do Picadeiro e Duques de Bragança. Esse conjunto termina, do lado de lá da Rua Victor Cordon, num grande edifício onde estão instalações da Universidade Livre. Era aí, nesse edifício, que funcionava o Hotel Bragança, tão mencionado nos romances do Eça de Queiroz.
É talvez ocasião de pensar num lugar para jantar: aí o problema é só de escolha se por acaso a sua bolsa ainda está abastecida. Um pouco mais acima, na Rua da Misericórdia, tem o Tavares, logo ali ao lado, o Rex, e um pouco mais abaixo o Avis.
Tem tempo ainda para dar um salto até ao Largo do Carmo (…)
(…) local onde o Poder não caiu na rua talvez pela protecção tutelar do Condestável.(…)
(…)Ao centro do Largo há um belo chafariz muito maltratado. Em tempos resolveram adicionar-lhe um depósito para água e, com o acrescento, todo o equilíbrio arquitectónico se perdeu.(…)
(…) Dali, do Largo, pode passar ao cimo do elevador de Santa Justa donde disfruta uma magnífica vista sobre a Baixa e parte Ocidental de Lisboa; Vale a pena e são só cinquenta metros. (…)
(…) Depois do opíparo jantar, ao caminhar calmamente para a ópera, em São Carlos, vai filosofando: tanta cousa que há para ver, aqui, no Chiado.
E embora a Ramalhal Figura chamasse ao Chiado a ladeira vaidosa, chega à conclusão de que é bem mais importante ver do que ser visto…
E volte sempre…há muito, muito mais para ver…

Duarte Cannavial
Foto Mário Marzagão

27/12/2014

A vida das mulheres



Porque razão nós as mulheres não somos felizes, quer dizer até podemos ser felizes mas não somos felizes felizes e muito menos felizes felizes felizes, também não somos infelizes, é um estado de alma assim assim que o facto de termos uma família vai compondo, uma família, a casa paga, os electrodomésticos pagos, tudo pago
O que me aconteceu que não me apetece fazer amor com o meu marido? As minhas amigas garantem que ao fim de cinco anos de casada é inevitável, a ideia vai deixando de exaltar-nos, até se continua a ter prazer mas não é a mesma coisa, se em vez do meu marido fosse outro qualquer era igual, o tempo mata o entusiasmo e o desejo mas, em compensação, aparecem outras alegrias, sobretudo o facto de ter uma família, uma certa paz, uma rotina no fim de contas agradável, um sentimento de estar protegida, de segurança, de estabilidade embora com os homens nunca se saiba, tão infantis, tão à mercê de entusiasmos, caprichos, qualquer par de pernas os transtorna, as raparigas mais novas põem-nos a ferver mas a segurança e a estabilidade, ainda que precárias às vezes, existem de facto, claro que há separações, divórcios, etc., porém a estabilidade e a segurança, uma certa estabilidade e uma certa segurança existem de facto e depois, uma vez a meio da semana e outra ao fim de semana, lá vem a mãozinha, a perna, o corpo todo, é agradável sem ser muito bom, aquela paz do depois sossega a gente e, para além do sossego, o alívio de saber que por uns dias teremos descanso, jantares com amigos, a televisão, o jornal, a vida é isto, quanto ao fazer amor umas ocasiões é agradável, outras nem tanto, a partir de um certo tempo em comum as coisas tendem a passar-se mais ou menos da mesma maneira, não há grandes variações, não há acrobacias, acabam e levantam-se logo com a desculpa do chichi, do copo de água, das crianças que podem ouvir
(ouvir o quê se acabou?)
parecem aborrecidos connosco, parecem fartos, não respondem, resmungam, não conversam, ficam calados no sofá ou telefonam a um colega do emprego para combinar um jantar a quatro, há quantos meses não jantamos sozinhos, há quantos meses não me beija sem segundas intenções, só por beijar, não me diz nada terno, não me pega na mão, na semana passada perguntei-lhe
- Gostas de mim?
respondeu
- Estou aqui não estou?
parecia que admirado com a pergunta, se ponho um vestido novo anima-se um bocado porque me tornei outra e é a outra que lhe interessa, não eu, a mesma reacção com brincos grandes, mais maquilhagem, saltos altos, a quem é que apetece fazer amor afinal, a mim, a ele, é evidente que não me interessam outros, nem olho, o actor de uma série de televisão mas isso um entusiasmo vago, um
- Como seria se
que conforme aparece se esfuma, quando vamos no carro já me aconteceu pensar no actor, uma espécie de pergunta, porque não chega a pergunta
- Como se seria se
e passa, o meu marido não gosta de conversar enquanto conduz ele que ao princípio conversava imenso
- Não me desconcentres que só temos seguro contra terceiros pergunto-me se o actor me daria atenção ou ao cabo de cinco anos o mesmo, suponho que o mesmo ou antes tenho a certeza que o mesmo, pelo que oiço não há-de haver muitas diferenças entre eles, porque razão nós as mulheres não somos felizes, quer dizer até podemos ser felizes mas não somos felizes felizes e muito menos felizes felizes felizes, também não somos infelizes, é um estado de alma assim assim que o facto de termos uma família vai compondo, uma família, a casa paga, os electrodomésticos pagos, tudo pago, chegarmos juntos para comer nos meus pais que nem sonham que não me apetece fazer amor com o meu marido, até continuo a ter prazer mas não é a mesma coisa, nem pensam nisso em relação a mim, detestam pensar nisso em relação a mim porque continuo a ser menina para eles, se a minha mãe
- Está tudo bem entre vocês? respondo logo que está tudo bem, não se preocupe, nunca esteve tão bem e depois os miúdos graças a Deus são óptimos, tive imensa sorte, sabia, não trocava o que tenho nem por uma mina de ouro, a minha mãe, desconfiada
(aquele instinto das mulheres que ela, apesar dos setenta e três anos, ainda não perdeu)
- Palavra de honra?
enquanto o meu pai e o meu marido jogam às damas e nós na cozinha, em voz baixa, vejo-os daqui debruçados para o tabuleiro, no caso de perguntar à minha mãe e não pergunto, é evidente
- Está tudo bem entre vocês?
ela de súbito quieta, da minha idade e quieta, idêntica a mim
- Está tudo bem, não te preocupes
e não está tudo bem pois não, diga lá, nunca esteve tudo bem e agora é tarde para recomeçar a vida, filha, repara no meu corpo, no meu cabelo, nas minhas pernas, na minha cara, na minha pele, repara como envelheci, nem acredito quando me vejo ao espelho, ao nasceres pensei
- Acabou-se
e desisti, percebes, desisti, mas aparte ter desistido tudo bem, viste o actor daquela série da televisão, filha, talvez não acredites mas já me aconteceu que, não ligues, era uma conversa parva, o que é que me deu hoje, há alturas em que me torno uma adolescente tonta, que ridículo, uma adolescente de setenta e tal anos, que palermice, há alturas, lá ia eu continuar com a conversa, o que me preocupa é que tu estejas bem, a única coisa na vida que me preocupa é que tu estejas bem, o resto não tem importância, que tu estejas bem por mim que não espero seja o que for, passou muito tempo, entendes, demasiado tempo e não há tempo para mim hoje em dia, chega acontecer, vê só a estupidez, chega a acontecer imaginar-me morta e não é inteiramente desagradável, calcula, porque, pensando um bocadinho nisso, desde que me tornei mulher quando é que foi bom viver?


António Lobo Antunes
foto desconheço Autor

26/12/2014

Disse a flor...


"Disse a flor para o pequeno príncipe: é preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas!"


Antoine de Saint-Exupér
Foto desconheço Autor

24/12/2014

Natal...



Na tal habitação volto a falar-te
Na tal que já eu-próprio não conheço
Na tal que mais que tálamo era berço
Na tal em que de noite nunca é tarde

Na tal de que por fim ninguém se evade
Na tal a que sei bem que não regresso
Na tal que umbilical cabe num verso
Na tal sem universo que a iguale

Na tal habitação te vou falando
Na tal como quem joga às escondidas
Na tal a ver se tu me dizes qual

Na tal de que eu herdei só este canto
Na tal que para sempre está perdida

Na tal em que o natal era Natal.

David Mourão-Ferreira

22/12/2014

Um pouco de Ternura...




Nos olhos dela habitava a bondade. Um doce sorriso embalava-lhe os lábios, e a face transparecia a tranquilidade interior de quem não fora punida pelo despeito nem agredida pelo ressentimento. Era ainda nova: vivia na linha de sombra que tenuemente divide a idade das pessoas, entre maduras e velhas. De onde viera? Que idade tinha? Ninguém sabia. Por vezes, pintava os lábios murchos. Por vezes, exibia largos decotes e mangas cavadas, eis o traço lascivo dos seios, eis os braços roliços, opulentos e sensuais. Era alta, quase imponente; porém, quando subia a rua íngreme, parecia alada, os pés quase não tocavam no chão.

Aparecera no bairro e logo se organizara uma aura de mistério em sua volta. Apesar da estatura, mantinha-se discreta e reservada, pouco falava com os vizinhos. Havia dias em que cantava; cantava alto velhas canções de amor. Nas tardes de sábado, os homens reuniam-se no clube, jogavam ao loto e à sueca e, ocasionalmente, embebedavam-se.

Ela residia num pequeno apartamento, mesmo por cima do clube. Gostava de se colocar à varanda, e os homens fitavam-na, gulosos, ávidos e sôfregos. Fingia não os ver. As mulheres remoíam raivas e amuos. Ela observava o horizonte, lá, onde o Tejo forma uma laçada, e permanecia assim: abstracta, atenta e exposta. Mas gostava que a apreciassem, e divertia-se com o ciúme das outras. Às vezes dançava ao som de uma pequena telefonia. Dançava como se estivesse a dançar com o mundo, ou, quem sabe?, a pensar em alguém que amara.

As geografias sentimentais são mais ou menos favoráveis: o bairro era bom e valia tudo o que de ele se dissesse; o resto era mau, e tudo o que de pior se dissesse nunca seria excessivo. Começaram as intrigas, as suposições pérfidas, as calúnias evasivas. Não lhe perdoavam a beleza, a dignidade da postura, a pequena viração de altivez que dela se desprendia.

Suspeitaram de tudo: que era prostituta, que vivia às custas de um proprietário de imóveis, que fazia números de nu em cabarés rascas. Chegou-lhe aos ouvidos a natureza insidiosa desses boatos. Não lhes atribuiu a menor importância, o que ainda mais arreliou as outras.

Saía de casa logo pela manhã, regressava tarde, ocasionalmente ausentava-se pela noite. Acumulavam-se as suspeições. Até que, certo dia, deixou de aparecer. O falatório aumentou. Coisas medonhas foram ditas, como se de verdades se tratassem. Correu o tempo; uma semana passou, outra, e outra ainda. Para onde fora? Que seria feito dela? E se ele não regressasse, não pudesse regressar ou não quisesse regressar?

Depois, houve quem a visse. Era numa tarde em que a chuva, lamentosa, caía forte. Desapareceu no cotovelo da rua, quem a viu acelerou o passo para descortinar aonde ela ia. Entrou num prédio alto e antigo, de azulejos, e ao perseguidor assaltou a ideia de que a vizinha misteriosa talvez fosse mulher-a-dias. Este indivíduo tivera, em tempos, a veleidade de se relacionar com ela; porém, fora rejeitado com uma frase breve e ríspida. Era o ressentimento que o incitara àquela infausta perseguição.

Horas e horas decorreram. A chuva deixara de cair, o homem encostara-se a uma árvore, sem abandonar a vigilância ao prédio. Até que, finalmente, ela reapareceu. Olhou em derredor e, rapidamente, aproximou-se da árvore onde o outro se ocultava. Atrapalhou-se, o homem. E ela disse:

— Quer saber o que eu faço, não é?
— Bom…bom — Não sabia o que responder.
— Olhe: vendo ternura.

E desandou. Agora, uma brisa mansa, um vento acariciador, um pio de ave, e o silêncio. Era assim: todos os dias, ou quase, ela visitava casas de gente idosa, e recebia escassos euros para lhes ler jornais, revistas ou livros de histórias cordatas com finais felizes. Simplesmente um pouco de ternura.

Voltou à rua para se despedir da rua e ignorar as pessoas. As pessoas juntaram-se, viram-na subir o calçadão, puxar pelas pernas para escalar a escadaria enorme. Durante algum tempo pensaram nela. Nunca ninguém soube o seu nome, nem se foi feliz na vida.

Anos depois, um modesto cronista contou-a numa crónica humilde.

Baptista Bastos
foto desconheço Autor

21/12/2014

Amar...



"Amar é a eterna inocência.
E a única inocência é não pensar."

Alberto Caeiro

20/12/2014

Ofereço-te palavras...



Se terminar este poema, partirás. Depois da
mordedura vã do meu silêncio e das pedras
que te atirei ao coração, a poesia é a última
coincidência que nos une. Enquanto escrevo
este poema, a mesma neblina que impede a
memória límpida dos sonhos e confunde os
navios ao retalharem um mar desconhecido

está dentro dos meus olhos – porque é difícil
olhar para ti neste preciso instante sabendo que
não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que

continuo a amar-te em surdina com essa inércia
sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não
beijos, porque o poema é o único refúgio onde
podemos repetir o lume dos antigos encontros.

Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui,
que apenas escreva até ao fim mais esta página
(que, como as outras, será somente tua – esse

beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que
aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade
nos faz adultos para sempre, sei que te perderei

em qualquer caso: se terminar o poema, partirás;
e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á
a última coincidência que nos une.


Maria do Rosário Pedreira
foto desconheço Autor