31/01/2015

Poema de canção sobre a esperança...



Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também...
(...)

Álvaro de Campos

Nossas bocas...



Nossas bocas nunca
se perderam.
Só deixaram de
se encontrar com
hora marcada...
Não se pertenciam,
apenas se amavam...

A. Auer



29/01/2015

Aparição amorosa



Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto… o quê? a massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma idéia platónica no espaço?
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.

Carlos Drummond de Andrade



27/01/2015

Deixei contigo o meu amor...


 Deixei contigo o meu amor,
 música de açúcar a meio da tarde,
um botão de vestido por apertar,
 e o da vida por desapertar,
 a flor que secou nas páginas de um livro,
 tantas palavras por dizer
 e a pressa de chegar,
 com o azul do céu à saída.
 por entre cafés fechados e um por abrir.

 Mas trouxe comigo o teu amor,
 os murmúrios que o dizem quando os lembro,
 a surpresa de um brilho no olhar,
 brinco perdido em secreto campo,
 o remorso de partir ao chegar,
 e tudo descobrir de cada vez,
 mesmo que seja igual ao que vês
 neste caminho por encontrar
 em que só tu me consegues guiar.

 Por isso tenho tudo o que preciso
 mesmo que nada nos seja dado;
 e basta-me lembrar o teu sorriso
 para te sentir ao meu lado.


 Nuno Júdice

26/01/2015

Tu...


Tu acendes a chama 
do meu corpo
pões a lenha ao fundo
em sítio seco

Procuras no desejo
o ponto certo
e convocas aí
o lume certo

Se a madeira demora
a ganhar fogo
tomas-me as pernas
e deitas lento o vinho

Riscas os fósforos todos
e depois
é mais um incêndio
que adivinho


Maria Teresa Horta

25/01/2015

Caminho da manhã



Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles escorre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.
Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.

Sophia de Mello Breyner Andresen


24/01/2015

Um trémulo instante de felicidade




Estivera a escrever desde o fio da madrugada. Não só porque gosto e escrever quando toda a gente dorme, como tinha de entregar um original na editora. No fio da madrugada, Deus também dorme, e eu não sou atormentado pelo bem nem pelo mal. Escuto apenas, esse sininho longínquo, esse murmúrio suave das memórias e das recordações, e a mão torna-se-me quente para a escrita.

Mão quente, isso mesmo. Não é tépida nem fria: quente. As ideias, então, fluem. Mas fluem sem pressa, não se atropelam umas às outras, e às vezes eu sorrio mansamente com esse desfilar de ideias. Vai a caligrafia num deslize, então. Vão as palavras felizes, e eu cheio de gozo e prazer vendo as frases construindo-se a si mesmas, sem tropeções, sem se acastelarem.

Antes de começar o meu trabalho estivera por detrás de um livro, e lia comovido a história de um velho que se apaixonava doidamente por uma velha, no lar de velhos onde se encontravam.

As vigilantes haviam percebido os sobressaltos dos dois corações antigos mas sem rugas, e decidiram, com inclemente severidade, afastar os amados da voz dos seus sentimentos cálidos. Um para uma álea do pavilhão, outro para um quarto longe. A história pretendia ser a aventura das possibilidades. Mas não tinha final feliz: os dois velhos morriam de dor por se não verem, e de espanto por não entenderem a crueldade medonha da situação a que os obrigavam. Foi depois que comecei a escrever o original para a editora.

Uma coisa bem fugaz, sem compromisso; um texto que falava de canções entoadas por um cego. Rematei o texto como se deixasse de estar preocupado com um problema persistente. Acontece-me, quando trabalho com afã. Meti-me no carro um pouco fatigado; olhos pandos da insónia, boca a saber a oito séculos de história, membros pesados, todo o corpo latejante.

A Avenida de Roma era uma confusão de veículos. A manhã estava muito clara, o sol era leve, pessoas moviam-se, de um lado para outro lado, nos passeios, pareciam alheadas de tudo, puxadas pelas pernas e encaminhadas para os seus destinos certos. E carros, carros e carros. No interior, condutores nervosos. Alguns consultavam os relógios de pulso. Outros, acendiam cigarros. Outros ainda buzinavam. Os semáforos pareciam loucos. E carros, carros e carros. Marcha lenta, cada vez mais lenta. E as pessoas, na lembrança de um dia que se perderia uma vez mais, nem sequer olhavam para as coisas fortuitas: as pessoas, as faces das pessoas, mais pareciam objectos tensos e lamentáveis. A vida, a avenida, as montras talvez tivessem deixado de possuir aquele perfume vago, porém perfume, que costuma descarregar a tristeza e desanuviar a melancolia.

Pensava, maciamente, nestes factos banais. Sou um homem banal, embora decepcionado com esta época onde a solidariedade está desempregada, e o susto de viver se transformou num pesadelo diário. Pensava e guiava o carro com infinita paciência e extrema precaução. Eis senão quando de uma das ruas transversais surge uma pata seguida de sete patinhos. A pata conduziu os patinhos numa recta impecável. Espanto dos condutores de carros. Travagens bruscas. Sem sequer virar a cabeça para os lados, com uma dignidade altiva e uma presteza surpreendente, a pata desprezava, nitidamente, o mundo dos homens que a rodeava e aos filhos.

De onde teriam vindo eles? Talvez das hortas minúsculas, das quintinhas que ainda existem e resistem nas casas laterais à Avenida de Roma. Talvez. Imaginava coisas e episódios. E a pata continuava a atravessar a avenida, filhos atrás dela. A meio, parou brevemente; logo continuou a destemida caminhada. Tudo parado. Tudo atónito. Finalmente as pessoas descortinavam que, para além dos seus destinos certos, das suas angústias e apoquentações, havia acontecimentos bonitos, cenas de difícil explicação que ainda sucediam numa cidade virada para dentro do seu egoísmo.

A pata e os filhos atingiram o passeio. A pata olhou, então, de um para outro lado. Escolheu o sítio certo para aonde ir com os filhos. Certamente que escolheu o sítio certo. E os carros moveram-se de novo. E os transeuntes regressaram aos seus trajectos. E todos tornaram a virar-se para dentro do seu próprio egoísmo.

A Avenida de Roma, cheia de gente áspera, enervada, tensa, ficara, porém, durante alguns momentos, repleta de uma trémula felicidade. Daquela felicidade pequenina que é o nome da estrela que, afinal, nos faz ainda andar por cá.


Baptista Bastos