07/03/2015

A tua boca...


A tua boca declara guerra,
De língua desembainhada, sentencia a morte de todos os beijos,
Irreversíveis os que perdemos, eternos os que prometemos, mortos os que lastimamos.

A paixão persegue-me sem quartel,
E nada mais me resta que viver estropiado,
Quando nada mais se move no tempo que empresto, no amor que hipoteco,
Perdido o sustento ou o ofício de amar.

Que faço amanhã,
Se a renda que há meses não pago deixa o coração livre para
novos inquilinos,
Desconhecidos, outros que não nós?

Estou despido, fugindo do relento, procurando lugares escondidos dentro de nós.

Lambo as marcas da carne ferida. Não aprendi a evitar a tua pele de arame farpado.
Mas outra coisa não sei, cativo me declaro e rendo,
Revelo-te os segredos, o sexo na minha roupa.

Beija-me ou mata-me. Sem remédio, sem desculpas, esta noite extingo-me na tua cama.


Daniel Costa-Lourenço

06/03/2015

Dá-me lírios...



          
Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios —
Os melhores lírios —
E as melhores rosas
Sem receber nada.
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.


Álvaro de Campos

05/03/2015

Não contes...




Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar


Maria Teresa Horta

04/03/2015

Praia do Paraíso




Era a primeira vez que nus os nossos corpos
Apesar da penumbra à vontade se olhavam

Surpresos de saber que tinham tantos olhos
Que podiam ser luz de tantos candelabros

Era a primeira vez cerrados os estores
Só o rumor do mar permanecera em casa

E sabias a sal, e cheiravas a limos
Que tivesses ouvido o canto das cigarras

Havia mais que céu no céu do teu sorriso
Madrugada de tudo em tudo que sonhavas

Em teus braços tocar era tocar os ramos
Que estremecem ao sol desde que o mundo é mundo

É preciso afinal chegar aos cinquenta anos

Para se ver que aos vinte é que se teve tudo.

David Mourão Ferreira

03/03/2015

Como eu desejaria ser parte da noite...


"Como eu desejaria ser parte da noite,
Parte sem contornos da noite, um lugar qualquer no espaço
Não propriamente um lugar, por não ter posição nem contornos,
Mas noite na noite, uma parte dela, pertencendo-lhe por todos os lados
E unido e afastado companheiro da minha ausência de existir..."


Álvaro de Campos

02/03/2015

Quando estiveres cansado...


"Quando estiveres cansado de olhar uma flor, uma criança, uma pedra, quando estiveres cansado ou distraído de ouvir um pássaro a explicar o ser, quando te não intrigar o existirem coisas e numa noite de céu limpo nenhuma estrela te dirigir a palavra, quando estiveres farto de saberes que existes e não souberes que existes, quando não reparares que nunca reparaste no azul do mar, quando estiveres farto de querer saber o que nunca saberás, se nunca o amanhecer amanheceu em ti ou já não, se nunca amaste a luz e só o que ela ilumina, se nunca nasceste por ti e não apenas pelos que te fizeram nascer, se nunca soubeste que existias mas apenas o que exististe com esse existir, quando, se -, porque temes então a morte, se já estás morto?"


Virgílio Ferreira

01/03/2015

Ignoro o mundo e a noite...



Ignoro o mundo e a noite que o envolve e devora. Deixo escoar o cansaço do corpo pela janela do quarto. Fecho os olhos, finjo o sono, e vou pelos lugares desabitados do meu corpo.
A noite cheira a musgo molhado e a bolor. Excrementos de aves acumularam-se na palma das mãos, sujam as linhas do destino e do coração. Um pano de flanela resguarda da poeira os poucos brinquedos que resistiram às mudanças de casa. A humidade manchou a memória.
Levanto-me da cama, arrasto-me até à janela. O mar talvez se aviste dali. Mas o mar só se torna nítido quando sonho, não se consegue avistar da janela. Volto a deitar-me.
O mar, o dos sonhos, depositou sal luminoso nos cantos da casa, formando desérticas paisagens onde queimo os dedos, o tacto, vagarosamente. Nos corredores já não é possível encontrar sinais de passos nem de facas pelas paredes. Silêncio com gumes de luz atravessa o alicerce ósseo da casa. Lá fora, os estames porosos dos hibiscos oferecem-se aos insectos, crescem como cabelos. O pólen das acácias embriaga quem se aproxima da casa, ou quem ousa lavrar as incertezas da noite num lençol sujo de insónias e de agonia.
Dentro e fora de casa, as sombras dos mortos esburacam a terra e os soalhos, colam-se aos corpos dos que permaneceram aqui.


Al Berto