O rio está virado e a chuva cai a cântaros. É um dia
repetitivo, sem remanso, sulcado de pequenos trechos de amargura, de minúsculas
teias de angústia. Percorri com humildade o meu caminho diário, desempenhei com
aplicação as tarefas que me foram destinadas, cigarro pendurado no beiço, olhos
ardidos, por muitas letras lidas e escritas, e penso, agora, na utilidade
inútil em que se transformam as palavras que escrevo. Quem me lê? Quem nos lê?
Para quem escrevemos estas frases pensadas com rapidez, sinais e signos de
ideias que malbaratamos?
E aí está, sobre a minha banca de trabalho onde se atafulham
folhas normalizadas, papéis delidos, canetas, recados, preocupações e avisos –
e aí está a fotografia. A fotografia é a de um homem que meia Lisboa conhece,
que meia Lisboa negligencia, que meia Lisboa finge ignorar, por incúria, por
indiferença. Talvez por egoísmo. Isso: egoísmo. Se há uma biografia para o egoísmo,
há, certamente há, uma biologia do egoísmo; do nosso egoísmo colectivo.
O homem coberto de mantas de holandilha, sujo, imundo,
sórdido, asqueroso, passeia o seu autismo numa caminhada apressada, sem tino
nem destino. Por debaixo das mantas sujas um corpo que se entrevê esquelético,
um sexo pendente que em vão procura tapar, pés com pústulas, mãos que parecem
providas de grifos, cabelos enormes, desgrenhados. Olho a fotografia e penso:
se vocês fazem questão de saber, também eu, durante uma semana, tentei
descobrir ou adivinhar o passado, o presente e o futuro do homem que caminha
sem parar, apossado de uma demência inquieta. Um homem infausto num tempo
inclemente. Abordei-o meia dúzia de vezes. Ofereci-lhe dinheiro; até pão,
adquirido na padaria do Celeiro, ali mesmo na Rua 1º de Dezembro, no final das
Escadinhas do Duque. Nem me olhou, fê-lo de forma subtil, de soslaio,
enviesada. Falei-lhe falas banais, impelido por uma solidariedade que a rotina
da profissão e as marcas do tempo jamais conseguiram fazer recuar em mim.
Estacou, primeiro; recomeçou a andar, logo-logo. Uma grave apreensão emergiu,
de sobreleve, no rosto esquálido. Estacou de novo; virou-se para trás, examinou
o homem grisalho, céptico e rugoso que se lhe dirigia. Disse-me:
- Eu não sou ninguém.
Não o disse assim, exactamente assim. A articulação
sintáctica foi outra; mas o objectivo final era comunicar-me uma afirmação
fantomática: eu não sou ninguém. Nem aflita, sequer, era a afirmação. Os olhos
estavam amassados e as pálpebras pandas. Pessoas estugaram o passo, caminhando
para os seus objectivos irretorquíveis e certos. Pessoas cujo nome também eu
não sabia, cujas vidas eram também um enigma para mim, cujas missões e destinos
teriam de estar assinalados por ausências, amores, encontros e desencontros.
Insisti, preso a velhas reminiscências:
- Mas você tem um nome.
Mais uma afirmativa do que uma interrogação.
Recomeçou a passeata à toa, eu atrás dele, no varejo de uma
história possível. Não há histórias possíveis. Todas as histórias são impossíveis
desde o momento em que se possam contar. Parou de novo. Virou-se-me e
chegou-se-me tão de perto que lhe senti o bafo morno, a respiração arfante:
- Não sou ninguém. Não tenho nome. Nunca tive nome. Quer
dar-me um nome? Porque é que não me dá um nome? O seu, por exemplo?...
Tive vontade de lhe dizer que levo um ror de anos a tentar
comunicar com os outros. Nada. Ninguém me liga nenhuma, porque eu, afinal,
também não sou ninguém, e porque as palavras que escrevo, por incompetentes e
inócuas, não encontram destinatários certos. Mas nada disso falei. Tive vontade
de lhe dizer que, apesar de as minhas palavras se não repercutirem em nada, em
alguém, em ninguém – eu tento, tento sempre, sempre tenho tentado. Estávamos em
silêncio, os dois, cada vez mais perto um do outro e, simultaneamente, cada vez
mais afastados um do outro. Na minha profissão aprendi a servir-me de
qualificativos para os homens. Sei lá quais!; a este homem andrajoso e imundo
que adjectivo aplicar?
Acaso este: só. Ah!, como eu só, como vocês, só; como vocês
– todos sós. Sós, solitários, imundos de solidão e andrajosos a ratear
ternuras. Um homem só é um homem deserdado. De repente, ele sorriu. Um sorriso
claro, iluminado e lento como um ritual. E rematou:
- Tenho de ir à vida…
Baptista-Bastos