31/03/2015

Meditação...


Às vezes, quando a noite vem caindo,
Tranquilamente, sossegadamente,
Encosto-me à janela e vou seguindo
A curva melancólica do Poente.

Não quero a luz acesa. Na penumbra,
Pensa-se mais e pensa-se melhor.
A luz magoa os olhos e deslumbra,
E eu quero ver em mim, ó meu amor!

Para fazer exame de consciência
Quero silêncio, paz, recolhimento
Pois só assim, durante a tua ausência,
Consigo libertar o pensamento.

Procuro então aniquilar em mim,
A nefasta influência que domina
Os meus nervos cansados; mas por fim,
Reconheço que amar-te é minha sina.

Longe de ti atrevo-me a pensar
Nesse estranho rigor que me acorrenta:
E tenho a sensação do alto mar,
Numa noite selvagem de tormenta.

Tens no olhar magias de profeta
Que sabe ler no céu, no mar, nas brasas...
Adivinhas... Serei a borboleta
Que vendo a luz deixa queimar as asas.

No entanto — vê lá tu!— Eu não lamento
Esta vontade que se impõe à minha...
Nem me revolto... cedo ao encantamento...
— Escrava que não soube ser Rainha!

Fernanda de Castro


30/03/2015

Balada de sempre


Espero a tua vinda,
a tua vinda,
em dia de lua cheia.
debruço-me sobre a noite
inventando crescentes e luares.
Espero o momento da chegada
com o cansaço e o ardor de todas as chegadas.
Rasgarás nuvens, estradas,
abrindo clareiras
nas sebes e nas ciladas.
Saltarás por cima de mares,
de planícies e relevos
- ânsia alada
no meu desejo imaginada
Mas
enquanto deixo a janela aberta
para entrares
o mar
aí além,
lambe-me os braços hirtos, braços verdes
algas de sonho
- e desenha ironias na areia molhada
  
Fernando Namora



29/03/2015

Olha....


Olha: eu queria saber em que parte
se morre, para ter uma flor e com ela
atravessar vozes leves e ardentes e crimes
sem roupa. Existe nas ilhas um silêncio para
a poeira tremer, e o teu rosto se voltar lentamente cheio
de febre para o lado de uma canção
terrível e fria.

 Herberto Helder

28/03/2015

O homem que não é ninguém... (Lisboa contada pelos dedos)



O rio está virado e a chuva cai a cântaros. É um dia repetitivo, sem remanso, sulcado de pequenos trechos de amargura, de minúsculas teias de angústia. Percorri com humildade o meu caminho diário, desempenhei com aplicação as tarefas que me foram destinadas, cigarro pendurado no beiço, olhos ardidos, por muitas letras lidas e escritas, e penso, agora, na utilidade inútil em que se transformam as palavras que escrevo. Quem me lê? Quem nos lê? Para quem escrevemos estas frases pensadas com rapidez, sinais e signos de ideias que malbaratamos?
E aí está, sobre a minha banca de trabalho onde se atafulham folhas normalizadas, papéis delidos, canetas, recados, preocupações e avisos – e aí está a fotografia. A fotografia é a de um homem que meia Lisboa conhece, que meia Lisboa negligencia, que meia Lisboa finge ignorar, por incúria, por indiferença. Talvez por egoísmo. Isso: egoísmo. Se há uma biografia para o egoísmo, há, certamente há, uma biologia do egoísmo; do nosso egoísmo colectivo.
O homem coberto de mantas de holandilha, sujo, imundo, sórdido, asqueroso, passeia o seu autismo numa caminhada apressada, sem tino nem destino. Por debaixo das mantas sujas um corpo que se entrevê esquelético, um sexo pendente que em vão procura tapar, pés com pústulas, mãos que parecem providas de grifos, cabelos enormes, desgrenhados. Olho a fotografia e penso: se vocês fazem questão de saber, também eu, durante uma semana, tentei descobrir ou adivinhar o passado, o presente e o futuro do homem que caminha sem parar, apossado de uma demência inquieta. Um homem infausto num tempo inclemente. Abordei-o meia dúzia de vezes. Ofereci-lhe dinheiro; até pão, adquirido na padaria do Celeiro, ali mesmo na Rua 1º de Dezembro, no final das Escadinhas do Duque. Nem me olhou, fê-lo de forma subtil, de soslaio, enviesada. Falei-lhe falas banais, impelido por uma solidariedade que a rotina da profissão e as marcas do tempo jamais conseguiram fazer recuar em mim. Estacou, primeiro; recomeçou a andar, logo-logo. Uma grave apreensão emergiu, de sobreleve, no rosto esquálido. Estacou de novo; virou-se para trás, examinou o homem grisalho, céptico e rugoso que se lhe dirigia. Disse-me:
- Eu não sou ninguém.
Não o disse assim, exactamente assim. A articulação sintáctica foi outra; mas o objectivo final era comunicar-me uma afirmação fantomática: eu não sou ninguém. Nem aflita, sequer, era a afirmação. Os olhos estavam amassados e as pálpebras pandas. Pessoas estugaram o passo, caminhando para os seus objectivos irretorquíveis e certos. Pessoas cujo nome também eu não sabia, cujas vidas eram também um enigma para mim, cujas missões e destinos teriam de estar assinalados por ausências, amores, encontros e desencontros. Insisti, preso a velhas reminiscências:
- Mas você tem um nome.
Mais uma afirmativa do que uma interrogação.
Recomeçou a passeata à toa, eu atrás dele, no varejo de uma história possível. Não há histórias possíveis. Todas as histórias são impossíveis desde o momento em que se possam contar. Parou de novo. Virou-se-me e chegou-se-me tão de perto que lhe senti o bafo morno, a respiração arfante:
- Não sou ninguém. Não tenho nome. Nunca tive nome. Quer dar-me um nome? Porque é que não me dá um nome? O seu, por exemplo?...
Tive vontade de lhe dizer que levo um ror de anos a tentar comunicar com os outros. Nada. Ninguém me liga nenhuma, porque eu, afinal, também não sou ninguém, e porque as palavras que escrevo, por incompetentes e inócuas, não encontram destinatários certos. Mas nada disso falei. Tive vontade de lhe dizer que, apesar de as minhas palavras se não repercutirem em nada, em alguém, em ninguém – eu tento, tento sempre, sempre tenho tentado. Estávamos em silêncio, os dois, cada vez mais perto um do outro e, simultaneamente, cada vez mais afastados um do outro. Na minha profissão aprendi a servir-me de qualificativos para os homens. Sei lá quais!; a este homem andrajoso e imundo que adjectivo aplicar?
Acaso este: só. Ah!, como eu só, como vocês, só; como vocês – todos sós. Sós, solitários, imundos de solidão e andrajosos a ratear ternuras. Um homem só é um homem deserdado. De repente, ele sorriu. Um sorriso claro, iluminado e lento como um ritual. E rematou:
- Tenho de ir à vida…


Baptista-Bastos

27/03/2015

Passei o Dia ouvindo o que o Mar dizia


Eu hontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.

Chorámos, rimos, cantámos.

Fallou-me do seu destino,
Do seu fado...

Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Poz-se a cantar
Um canto molhádo e lindo.

O seu halito perfuma,
E o seu perfume faz mal!

Deserto de aguas sem fim.

Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...

Elle afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado...

Ao longe o Sol na agonia
De rôxo as aguas tingia.

«Voz do mar, mysteriosa;
Voz do amôr e da verdade!
- Ó voz moribunda e dôce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte...»
. . . . . . . . . . . . . . . .

E os poetas a cantar
São echos da voz do mar!


António Botto

25/03/2015

Ó noite, porque hás-de vir sempre molhada!



Ó noite, porque hás-de vir sempre molhada!  Porque não vens de olhos enxutos  e não despes as mãos  de mágoas e de lutos!   Poque hás-de vir semimorta,  com ar macerado e de bruxedo,  e não despes os ritos, o cansaço,  e as lágrimas e os mitos e o medo!   Porque não vens natural  Como um corpo sadio que se entrega,  e não destranças os cabelos,  e não nimbas de luz a tua treva!   Poque hás-de vir com a cor da morte  - se a morte já temos nós!  Porque adormeces os gestos,  porque entristeces os versos,  e nos quebras os membros e a voz!   Porque é que vens adorada  por uma longa procissão de velas,  se eu estou à tua espera em cada estrada,  nu, inteiramente nu,  sem mistérios, sem luas e sem estrelas!   Ó noite eterna e velada,  senhora da tristeza, sê alegria!  Vem de outra maneira ou vai-te embora,  e deixa romper o dia!


 Eugênio de Andrade


23/03/2015

Instrução primária


Não saibas: imagina...
Deixa falar o mestre, e devaneia...
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.

Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões...
Um a-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições...

Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorria!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,

Aias da fantasia...

Miguel Torga