- Lembras-te daquela história da escova?
Em primeiro lugar quero dizer que estou farto de ser orfão,
eu que, em criança, tantas vezes desejei a vossa morte, durante umas horas,
quando ralhavam comigo ou não me deixavam fazer o que me apetecia e
obrigavam-me a actos desnecessários tais como lavar os dentes, comer sopa ou
pegar nos talheres como deve ser. A ordem
- Pega nos talheres como deve ser
ainda ecoa, horrível, dentro de mim, tal como a sinistra
pergunta
- Não lavaste as mãos antes de vir para a mesa?
ou a resposta
- Um dia falamos sobre isso
quando calhava interessar-me pelo modo como as crianças
apareciam dentro da barriga das mães. Apesar de tudo eu tinha alguma cultura:
sabia, claro, que os rapazes faziam chichi pela pilinha, que as meninas por um
buraquinho mas um dia vi uma mulher de cócoras no pinhal em Nelas e fiquei
banzo: fazia por uma escova. Naturalmente interessei-me:
- Porque é que as
mulheres fazem por uma escova?
e os meus pais primeiro banzos também e depois a lutarem
para ficar sérios. Não me explicaram nada e vários mistérios subsistiram
durante muito tempo. Primeiro, porque é que as mulheres têm uma escova ali.
Segundo, porque é que as escovas, que passei a olhar com desconfiança, fazem
chichi. Terceiro, isto acontecerá ao conjunto das meninas, ao crescerem, ou só
àquela? Quarto, o exame minucioso a que submeti todas as escovas que encontrei
em casa não me deu nenhum resultado esclarecedor: não havia uma que não
estivesse seca. As de escovar a roupa, as de escovar o cabelo, as de esfregar o
chão. E os meus pais sem responderem. A minha mãe ainda abriu a boca mas não
chegou a falar, embaraçadíssima. O meu pai não abriu a boca mas qualquer parte
dele parecia divertir-se às escondidas, quando qualquer parte dele parecia
divertir-se às escondidas a minha mãe a censurá-lo
- João
e ele logo sério, ausente, a interessar-se pelos meus
estudos que, em geral, o desgostavam porque os meus resultados escolares
costumavam roçar o trágico e constituíam uma preocupação constante para a
família. O facto de eu ser escritor
(sempre fui escritor desde que me conheço e a minha mãe
previa-me um futuro de miséria negra)
não desagradava inteiramente ao meu pai, que tinha um
respeito sagrado pelos artistas, mas os meus resultados escolares
preocupavam-no, queria que eu tivesse uma profissão sólida que me amparasse as
veleidades criativas. Para ele, a única profissão sólida e digna era ser médico
- E depois, nos
intervalos, escreves
como Júlio Dinis ou Duhamel. Acabei por lhe fazer a vontade,
pai, tornei-me médico, mas o meu curso foi um tormento para ele: reprovações,
notas baixíssimas, os seus colegas, professores também, lá me iam deixando
passar por amizade. Lembro-me que no fim da prova de Medicina Operatória o
catedrático me disse com bonomia, diante do anfiteatro cheio:
- Olha, filho, tens treze e diz lá ao pai que não pôde ser
mais.
Isto para além de cartas que ele me mostrava com desgosto,
género
O seu rapaz esteve aqui e não sabia nada
ou, comparando-me com o meu irmão
- O Lobo Antunes tem dois filhos, um é bom, o outro é uma
nódoa.
Ainda me espanta a razão pela qual o meu pai não me matou.
Mas sei que lia às escondidas o que eu escrevia e tinha muitas esperanças
literárias no filho, embora nunca me tivesse falado nisso, porque não era dado
a confidências ou elogios. A mim não me disse nada mas dizia aos meus irmãos
- O António tem faísca, o António tem faísca
e que, quando comecei a publicar, se orgulhava dos meus
produtos. Eu acho que os meus irmãos e eu tivemos muita sorte com os nossos
pais, que eram pessoas de uma honestidade irrepreensível, inteligentes, cultas,
complexas, rigorosas, com qualidades muito superiores aos defeitos que
obviamente também possuíam. Tivemos muita sorte, manos. Agora somos orfãos e
não tenho jeito para orfão. Eles também não. E depois perdemos há pouco o Pedro
que será sempre uma ferida aberta para nós. E depois da morte do Pedro a nossa
mãe informou que não tinha o direito de estar viva com um filho morto. E morreu
de puro desgosto, sem doença. Somos orfãos do Pedro também. Sobramos cinco e eu
não quero que nenhum deles morra antes de mim. Gostamos uns dos outros sem
palavras, com o imenso pudor que herdámos dos nossos pais. Não suporto a ideia
da morte do João, do Miguel, do Nuno, do Manuel, como continuo a não suportar a
ideia da morte do Pedro. Vou dizer uma coisa. Não devia dizer mas vou dizer.
Quando fomos contar à nossa mãe que o Pedro se tinha ido embora ela pronunciou
só uma frase:
- Tenham misericórdia de mim.
Sentada na sua cadeira, na sua sala:
- Tenham misericórdia de mim.
Agora está com o nosso pai, a contar, entre muitos outros
episódios
e o meu pai a responder
- Ah
que, no seu caso, às vezes, era um discurso muito comprido.
Esta crónica saiu toda descosida e mal feita. Não importa, de que outra forma
podia fazê-la? É a minha maneira aselha de pedir que tenham misericórdia de
mim, porque não sou o adulto que pensam. Peguem-me ao colo. Às vezes tenho tão
poucos anos nos meus anos todos e fico tão leve nessas alturas.
António Lobo Antunes