10/04/2015

Pensar em ti...



Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.


António Gedeão

09/04/2015

Encontro...


Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá pró futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.
O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.
Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.
Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim.
Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.

Almada Negreiros


07/04/2015

Durante o sono...


Durante o sono retiraram-me uma costela
Ficou-me no peito um vazio que não consigo preencher
Custa-me a respirar
Eu quero de volta a minha costela
quero de volta todas as costelas
Quero de volta o paraíso
quero de volta o silêncio rumorejante
quero de volta as poluições noturnas
e diurnas
Quero uma mulher
feita de chuva
e vento
e fogo
e neve
e luz
e breu
e não de argila
como eu.


Jorge de Sousa Braga

06/04/2015

Soneto do amor e da morte


Quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

Quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.


Vasco Graça Moura

05/04/2015

Tu tens um medo...

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todos os dias.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todos os dias.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.


Cecília Meireles

As palavras começam a ficar velhas...


As palavras começam a ficar velhas: têm
dores nas articulações e rangem, de vez
em quando, sem razão; reclamam óleos
e resinas, tempo e açúcares mais lentos.

Mas também eu estou velha demais para
oficinas, tão cansada de livros e papéis,
morta por viver outras coisas – por amor,

talvez espreitasse de novo nas mangas do
mundo e escrevesse uma fiada de búzios
no pulso da areia. Mas quantos dos teus
beijos perderia? Perdoem-me os que

ainda esperam por mim. Não sei se volto.

Maria do Rosário Pedreira

01/04/2015

Carta aos meus pais...



- Lembras-te daquela história da escova?
Em primeiro lugar quero dizer que estou farto de ser orfão, eu que, em criança, tantas vezes desejei a vossa morte, durante umas horas, quando ralhavam comigo ou não me deixavam fazer o que me apetecia e obrigavam-me a actos desnecessários tais como lavar os dentes, comer sopa ou pegar nos talheres como deve ser. A ordem

- Pega nos talheres como deve ser

ainda ecoa, horrível, dentro de mim, tal como a sinistra pergunta

- Não lavaste as mãos antes de vir para a mesa?

ou a resposta

- Um dia falamos sobre isso

quando calhava interessar-me pelo modo como as crianças apareciam dentro da barriga das mães. Apesar de tudo eu tinha alguma cultura: sabia, claro, que os rapazes faziam chichi pela pilinha, que as meninas por um buraquinho mas um dia vi uma mulher de cócoras no pinhal em Nelas e fiquei banzo: fazia por uma escova. Naturalmente interessei-me:

 - Porque é que as mulheres fazem por uma escova?

e os meus pais primeiro banzos também e depois a lutarem para ficar sérios. Não me explicaram nada e vários mistérios subsistiram durante muito tempo. Primeiro, porque é que as mulheres têm uma escova ali. Segundo, porque é que as escovas, que passei a olhar com desconfiança, fazem chichi. Terceiro, isto acontecerá ao conjunto das meninas, ao crescerem, ou só àquela? Quarto, o exame minucioso a que submeti todas as escovas que encontrei em casa não me deu nenhum resultado esclarecedor: não havia uma que não estivesse seca. As de escovar a roupa, as de escovar o cabelo, as de esfregar o chão. E os meus pais sem responderem. A minha mãe ainda abriu a boca mas não chegou a falar, embaraçadíssima. O meu pai não abriu a boca mas qualquer parte dele parecia divertir-se às escondidas, quando qualquer parte dele parecia divertir-se às escondidas a minha mãe a censurá-lo

- João

e ele logo sério, ausente, a interessar-se pelos meus estudos que, em geral, o desgostavam porque os meus resultados escolares costumavam roçar o trágico e constituíam uma preocupação constante para a família. O facto de eu ser escritor

(sempre fui escritor desde que me conheço e a minha mãe previa-me um futuro de miséria negra)

não desagradava inteiramente ao meu pai, que tinha um respeito sagrado pelos artistas, mas os meus resultados escolares preocupavam-no, queria que eu tivesse uma profissão sólida que me amparasse as veleidades criativas. Para ele, a única profissão sólida e digna era ser médico

 - E depois, nos intervalos, escreves

como Júlio Dinis ou Duhamel. Acabei por lhe fazer a vontade, pai, tornei-me médico, mas o meu curso foi um tormento para ele: reprovações, notas baixíssimas, os seus colegas, professores também, lá me iam deixando passar por amizade. Lembro-me que no fim da prova de Medicina Operatória o catedrático me disse com bonomia, diante do anfiteatro cheio:

- Olha, filho, tens treze e diz lá ao pai que não pôde ser mais.

Isto para além de cartas que ele me mostrava com desgosto, género

O seu rapaz esteve aqui e não sabia nada

ou, comparando-me com o meu irmão

- O Lobo Antunes tem dois filhos, um é bom, o outro é uma nódoa.

Ainda me espanta a razão pela qual o meu pai não me matou. Mas sei que lia às escondidas o que eu escrevia e tinha muitas esperanças literárias no filho, embora nunca me tivesse falado nisso, porque não era dado a confidências ou elogios. A mim não me disse nada mas dizia aos meus irmãos

- O António tem faísca, o António tem faísca

e que, quando comecei a publicar, se orgulhava dos meus produtos. Eu acho que os meus irmãos e eu tivemos muita sorte com os nossos pais, que eram pessoas de uma honestidade irrepreensível, inteligentes, cultas, complexas, rigorosas, com qualidades muito superiores aos defeitos que obviamente também possuíam. Tivemos muita sorte, manos. Agora somos orfãos e não tenho jeito para orfão. Eles também não. E depois perdemos há pouco o Pedro que será sempre uma ferida aberta para nós. E depois da morte do Pedro a nossa mãe informou que não tinha o direito de estar viva com um filho morto. E morreu de puro desgosto, sem doença. Somos orfãos do Pedro também. Sobramos cinco e eu não quero que nenhum deles morra antes de mim. Gostamos uns dos outros sem palavras, com o imenso pudor que herdámos dos nossos pais. Não suporto a ideia da morte do João, do Miguel, do Nuno, do Manuel, como continuo a não suportar a ideia da morte do Pedro. Vou dizer uma coisa. Não devia dizer mas vou dizer. Quando fomos contar à nossa mãe que o Pedro se tinha ido embora ela pronunciou só uma frase:

- Tenham misericórdia de mim.

Sentada na sua cadeira, na sua sala:

- Tenham misericórdia de mim.

Agora está com o nosso pai, a contar, entre muitos outros episódios


e o meu pai a responder

- Ah


que, no seu caso, às vezes, era um discurso muito comprido. Esta crónica saiu toda descosida e mal feita. Não importa, de que outra forma podia fazê-la? É a minha maneira aselha de pedir que tenham misericórdia de mim, porque não sou o adulto que pensam. Peguem-me ao colo. Às vezes tenho tão poucos anos nos meus anos todos e fico tão leve nessas alturas.

António Lobo Antunes