16/09/2016

Espelho

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

Mia Couto

07/08/2016

Peço-te. Não pises as violetas que trago no olhar...

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar.

Falemos dos brilhos estilhaçados
desta casa súbita que é o teu corpo
devoluto. A noite devora as palavras possíveis,
o sofrimento que pulsa em tua boca
e torna a minha boca vulnerável.
O amor é um nada que a liberta, uma luz
que desce dos ombros para o ventre
e fecunda as sementes da tua virgindade,
essa que faz agora parte de uma dor quase
amigável, na lividez do tempo,
e que entregas em minhas mãos, beijando-as,
tornando-te parte dos meus versos, da
minha forma mais profunda de gostar
de ti.

Amar-te, é escrever-te.
Amar-te é deixar que me toques até ser teu,
até que te deites no meu corpo e adormeças
inteira dentro de mim.

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar. Cheiram a ti. São para ti.
Um “bouquet” de palavras que floriram
neste tempo de amor.

Joaquim Pessoa


01/08/2016

Aguenta-te...



.(...)
– Aguenta-te
que de facto é a única coisa que se pode dizer. E eu tento aguentar, fingir que aguento quando sinto que me desmorono dentro de mim. Há sempre uma parede ou outra, ou um bocado de parede, que resiste e encosto-me a ela pensando
– Quando é que irá cair, quando é que irá cair?
Talvez caia, talvez não. E, se não cai, conseguiremos levantar de novo tudo o resto? Ou uma parte do resto? Ou um resto do resto? Amanhar uma espécie de tecto? Ou sentar-me no chão, ao lado das pedras, sem olhar para elas? Sentir que me desmoronei também, me tornei uma ruína igualmente?
(…)
– Aguenta-te
comigo a tentar agrupar-me, juntar-me todo, defender--me, proteger o que sou, o que teima em existir de mim e que não sei se me pertence ou está para ali como um velho retrato desfocado, do qual se não distinguem bem as feições. Torno-me uma pequenina coisa informe algures no meu corpo, torno-me um pingo de nada em silêncio, porém um silêncio que grita embora nem eu mesmo o oiça. Apercebo- -me que grita apenas porque os meus ossos vibram, reduzidos a fios. Vida, vida, quanto tempo duras tu de facto? Prolongas--te por abril, maio, junho, julho, agosto, até ao setembro dos meus anos? As marés do equinócio a que eu assistia da muralha sobre a praia, as ondas que à noite, em criança, escutava da cama, no escuro, numa fúria teimosa, misturada com a inquietação dos pinheiros. Onde se escondem os melros à noite? Na garagem? No canavial? A repetirem
– Aguenta-te ?
(…)

António Lobo Antunes

22/07/2016

?

O mais doloroso nem é saber que levas outra pessoa para a cama. Estou-me, se queres que te diga, realmente nas tintas para isso. O mais doloroso é saber que tens outros ombros para pousar a cabeça.
Fomos felizes tantas vezes, já te disse. E no entanto quando olho para trás entendo com nitidez que o que mais fica, o que mais nos fica, é a dificuldade e o que fizemos com ela. E foi aí, quando algo faltava, que nunca nos faltou nada. Quando dói o que não se consegue é só o amor que consegue.

O que junta as pessoas é aquilo que se consegue quando dói o que não se consegue.
Amar é também uma questão de confiança: da confiança que nos dá. Alguém que se sente amado, verdadeiramente amado, é alguém indestrutível. Sente em si uma força imparável, um herói por dentro de si. Contigo nada temia, contigo tudo era ultrapassável. Até que chegou a preguiça.
O que junta as pessoas é conseguir reagir quando chega a preguiça.
Fomos desaparecendo. Cada vez mais confortáveis e cada vez mais distantes. O conforto afasta, repele: integra. E o amor não é para ser integrado. E agora és de outra pessoa e eu não sou de ninguém. Talvez um dia consiga voltar a dormir com alguém, voltar a entregar o meu corpo a alguém. Mas as minhas lágrimas dificilmente deixarão de ser tuas.


Pedro Chagas  Freitas

14/07/2016

Dorme...

Dorme a vida a meu lado, mas eu velo.
(Alguém há-de guardar este tesoiro!)
E, como dorme, afago-lhe o cabelo,
Que mesmo adormecido é fino e loiro.

Só eu sinto bater-lhe o coração,
Vejo que sonha, que sorri, que vive;
Só eu tenho por ela esta paixão
Como nunca hei-de ter e nunca tive.

E logo talvez já nem reconheça
Quem zelou esta flor do seu cansaço...
Mas que o dia amanheça
E cubra de poesia o seu regaço!

Miguel Torga

11/07/2016

O homem que não é ninguém...





O rio está virado e a chuva cai a cântaros. É um dia repetitivo, sem remanso, sulcado de pequenos trechos de amargura, de minúsculas teias de angústia. Percorri com humildade o meu caminho diário, desempenhei com aplicação as tarefas que me foram destinadas, cigarro pendurado no beiço, olhos ardidos, por muitas letras lidas e escritas, e penso, agora, na utilidade inútil em que se transformam as palavras que escrevo. Quem me lê? Quem nos lê? Para quem escrevemos estas frases pensadas com rapidez, sinais e signos de ideias que malbaratamos?
E aí está, sobre a minha banca de trabalho onde se atafulham folhas normalizadas, papéis delidos, canetas, recados, preocupações e avisos – e aí está a fotografia. A fotografia é a de um homem que meia Lisboa conhece, que meia Lisboa negligencia, que meia Lisboa finge ignorar, por incúria, por indiferença. Talvez por egoísmo. Isso: egoísmo. Se há uma biografia para o egoísmo, há, certamente há, uma biologia do egoísmo; do nosso egoísmo colectivo.
O homem coberto de mantas de holandilha, sujo, imundo, sórdido, asqueroso, passeia o seu autismo numa caminhada apressada, sem tino nem destino. Por debaixo das mantas sujas um corpo que se entrevê esquelético, um sexo pendente que em vão procura tapar, pés com pústulas, mãos que parecem providas de grifos, cabelos enormes, desgrenhados. Olho a fotografia e penso: se vocês fazem questão de saber, também eu, durante uma semana, tentei descobrir ou adivinhar o passado, o presente e o futuro do homem que caminha sem parar, apossado de uma demência inquieta. Um homem infausto num tempo inclemente. Abordei-o meia dúzia de vezes. Ofereci-lhe dinheiro; até pão, adquirido na padaria do Celeiro, ali mesmo na Rua 1º de Dezembro, no final das Escadinhas do Duque. Nem me olhou, fê-lo de forma subtil, de soslaio, enviesada. Falei-lhe falas banais, impelido por uma solidariedade que a rotina da profissão e as marcas do tempo jamais conseguiram fazer recuar em mim. Estacou, primeiro; recomeçou a andar, logo-logo. Uma grave apreensão emergiu, de sobreleve, no rosto esquálido. Estacou de novo; virou-se para trás, examinou o homem grisalho, céptico e rugoso que se lhe dirigia. Disse-me:
- Eu não sou ninguém.
Não o disse assim, exactamente assim. A articulação sintáctica foi outra; mas o objectivo final era comunicar-me uma afirmação fantomática: eu não sou ninguém. Nem aflita, sequer, era a afirmação. Os olhos estavam amassados e as pálpebras pandas. Pessoas estugaram o passo, caminhando para os seus objectivos irretorquíveis e certos. Pessoas cujo nome também eu não sabia, cujas vidas eram também um enigma para mim, cujas missões e destinos teriam de estar assinalados por ausências, amores, encontros e desencontros. Insisti, preso a velhas reminiscências:
- Mas você tem um nome.
Mais uma afirmativa do que uma interrogação.
Recomeçou a passeata à toa, eu atrás dele, no varejo de uma história possível. Não há histórias possíveis. Todas as histórias são impossíveis desde o momento em que se possam contar. Parou de novo. Virou-se-me e chegou-se-me tão de perto que lhe senti o bafo morno, a respiração arfante:
- Não sou ninguém. Não tenho nome. Nunca tive nome. Quer dar-me um nome? Porque é que não me dá um nome? O seu, por exemplo?...
Tive vontade de lhe dizer que levo um ror de anos a tentar comunicar com os outros. Nada. Ninguém me liga nenhuma, porque eu, afinal, também não sou ninguém, e porque as palavras que escrevo, por incompetentes e inócuas, não encontram destinatários certos. Mas nada disso falei. Tive vontade de lhe dizer que, apesar de as minhas palavras se não repercutirem em nada, em alguém, em ninguém – eu tento, tento sempre, sempre tenho tentado. Estávamos em silêncio, os dois, cada vez mais perto um do outro e, simultaneamente, cada vez mais afastados um do outro. Na minha profissão aprendi a servir-me de qualificativos para os homens. Sei lá quais!; a este homem andrajoso e imundo que adjectivo aplicar?
Acaso este: só. Ah!, como eu só, como vocês, só; como vocês – todos sós. Sós, solitários, imundos de solidão e andrajosos a ratear ternuras. Um homem só é um homem deserdado. De repente, ele sorriu. Um sorriso claro, iluminado e lento como um ritual. E rematou:
- Tenho de ir à vida…


Baptista-Bastos
(Lisboa contada pelos dedos)

09/07/2016

Soneto do amor total...


Amo-te tanto, meu amor… não cante
o humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
numa sempre diversa realidade
Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
e te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente,
de um amor sem mistério e sem virtude
com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim muito e amiúde,
é que um dia em teu corpo de repente
hei-de morrer de amar mais do que pude.

Vinicius de Morais