23/05/2017

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.


Nuno Júdice
Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...


Miguel Torga

16/05/2017

Canção breve

Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.
Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança ou o calor
de uns dedos com restos de ternura.
Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.
Eugénio de Andrade

08/11/2016

Já me cansa...

Já me cansa
ter esperança.

De tanta quimera desfeita
aprendi a existir de sobras,
neste tempo de quases e nuncas.

Morro
de tanto vida por viver.

Calo-me
de quanta palavra esbanjada.

Desvaneço
de tanto beijo adiado.

O meu quarto
é o mundo inteiro sem mundo.

Quem me dera ser anjo
e sentir leve a terra
sob os meus pés alados.

Quem me dera
uma casa de nascença,
quem me dera um lume de crença,
um incêndio de todos os recomeços.

Quem dera
o quarto fosse de barro tenro,
um lugar de príncipe e princípios.

No sono
em que finjo adormecer
perco a noite
e o seu balouço de sonhos.

Sob o umbral da insónia
dou de beber a anjos
que se extinguem
na poeira dos desertos.

Mia Couto

30/09/2016

Sabe-me a boca a nada...

Sabe-me a boca a sombra.
Bebi a madrugada porque ela me deslumbra.
Matei a minha sede. Esqueci a minha fome.
Soletrei as sílabas molhadas do teu nome.
E os pássaros que adejavam a luz do teu sorriso
eram mais, muito mais do que é preciso
para aninhar na minha carne a tua história,
rainha das perguntas, princesa da memória.
Um dia hei-de servir-te palavras divertidas
e colherei de um campo verde margaridas.
Beijarei tuas mãos, teus peitos, tuas ancas
que cobrirei depois com essas flores brancas.
Farei muito amor contigo até de madrugada,
até que a boca saiba a sombra e saiba a nada.
E tudo há-de depois recomeçar do zero.
Beberei de novo a madrugada em desespero,
mas antes, gravarei, num dia como este,
o meu e o teu nome na casca de um cipreste
para que fique nesse tronco assinalado
que o futuro tem presente e tem passado.
E então, minha rainha, princesa, meu amor,
já podemos ir desta pra melhor.

Joaquim Pessoa

16/09/2016

Espelho

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

Mia Couto

07/08/2016

Peço-te. Não pises as violetas que trago no olhar...

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar.

Falemos dos brilhos estilhaçados
desta casa súbita que é o teu corpo
devoluto. A noite devora as palavras possíveis,
o sofrimento que pulsa em tua boca
e torna a minha boca vulnerável.
O amor é um nada que a liberta, uma luz
que desce dos ombros para o ventre
e fecunda as sementes da tua virgindade,
essa que faz agora parte de uma dor quase
amigável, na lividez do tempo,
e que entregas em minhas mãos, beijando-as,
tornando-te parte dos meus versos, da
minha forma mais profunda de gostar
de ti.

Amar-te, é escrever-te.
Amar-te é deixar que me toques até ser teu,
até que te deites no meu corpo e adormeças
inteira dentro de mim.

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar. Cheiram a ti. São para ti.
Um “bouquet” de palavras que floriram
neste tempo de amor.

Joaquim Pessoa