18/07/2017

Às vezes, olhar dói...

Às vezes, olhar dói. E como dói olhar os inquiridores
deste processo inquisitório a que chamas vida.
Olha-me bem nos olhos. Olha, sem paixão, no fundo
dos meus olhos, e que vês? Apenas um homem que se orgulha
da sua espinha dorsal. Subversivamente amante do amor,
despudoradamente amigo dos amigos, como se vivesse
com todos na mesma casa. Um ser inquieto por tanta
quietude. Um animal metido à força num filme
de aventuras, personagem literário plantado num campo
de golfe, convertido em mera verbalidade.
Segura as minhas mãos. Sente-as. Não vamos conversar
sobre literatura, somos donos de nós, é sobre coisas
velhas que vamos construir todas as coisas novas
das nossas vidas. Cada história é um poço de pequenas
histórias. Tentemos a normalidade. As pessoas normais
nunca sabem que o são e as anormais não têm
consciência de o ser. Por isso nos resta o olhar.
Viaja então por dentro do meu corpo, percorre
as florestas e as praias que há em mim, navega
este bocado de distância. Para o fazeres, basta
respirar. Só ver para lá do amor

é de todo impossível.

Joaquim Pessoa

05/07/2017

Soneto do Amor e da Morte



quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz o nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.


 Vasco Graça Moura

03/07/2017

Palavra que desnudo


Entre a asa e o voo
nos trocámos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a imperceptível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo.

Mia Couto

Deixas rasto no meu peito...

Deixas rasto no meu peito durante horas.
Dou com cabelos teus colados, dias depois, à roupa do meu sorriso.
Encontro nos vincos mais longínquos dos meus dedos o cheiro parado do teu olhar tão móvel.
Procuro-te nas esquinas dos instantes que passam.
Reconheço-te no vinco que a ternura deixa na carne do peito, do meu olhar, aquele que deito para longe, para outra esquina, de onde recebo mensagens de outro olhar igualmente teu, igualmente meu, reflectido na montra de uma loja do nosso sono.
Deslizo.
Deito-me sobre as lembranças.
(...)
E procuro-te sempre, na ausência da carne que os dias me traçam na pele.
E depois na presença eu ... presença tu...

Manuel Cintra


08/06/2017

Agora Mesmo


Está gente a morrer agora mesmo em qualquer lado
Está gente a morrer e nós também

Está gente a despedir-se sem saber que para
Sempre
Este som já passou Este gesto também
Ninguém se banha duas vezes no mesmo instante
Tu próprio te despedes de ti próprio
Não és o mesmo que escreveu o verso atrás
Já estás diferente neste verso e vais com ele

Os amantes agarram-se desesperadamente
Eis como se beijam e mordem e por vezes choram
Mais do que ninguém eles sabem que estão a
                               [despedir-se

A Terra gira e nós também A Terra morre e nós
Também
Não é possível parar o turbilhão
Há um ciclone invisível em cada instante
Os pássaros voam sobre a própria despedida
As folhas vão-se e nós
Também
Não é vento É movimento fluir do tempo amor e morte
Agora mesmo e para todo o sempre
Amen

Manuel Alegre


07/06/2017

Encontro


Felicidade, agarrei-te
Como um cão, pelo cachaço!
E, contigo, em mar de azeite
Afoguei-me, passo a passo...
Dei à minha alma a preguiça
Que o meu corpo não tivera.
E foi, assim, que, submissa,
Vi chegar a Primavera...
Quem a colher que a arrecade
(Há, nela, um segredo lento...)
Ó frágil felicidade!
— Palavra que leva o vento,
E, depois, como se a ideia
De, nos dedos, a ter tido
Bastasse, por fim, larguei-a,
Sem ficar arrependido...


Pedro Homem de Mello

31/05/2017

Canção de primavera


Eu, dar flor, já não dou. Mas vós, ó flores,
Pois que Maio chegou,
Revesti-o de clâmides de cores!
Que eu, dar, flor, já não dou.
Eu, cantar, já não canto. Mas vós, aves,
Acordai desse azul, calado há tanto,
As infinitas naves!
Que eu, cantar, já não canto.
Eu, invernos e outonos recalcados
Regelaram meu ser neste arrepio…
Aquece tu, ó sol, jardins e prados!
Que eu, é de mim o frio.
Eu, Maio, já não tenho. Mas tu, Maio,
Vem com tua paixão,
Prostrar a terra em cálido desmaio!
Que eu, ter Maio, já não.
Que eu, dar flor, já não dou; cantar, não canto;
Ter sol, não tenho; e amar…
Mas, se não amo,
Como é que, Maio em flor, te chamo tanto,
E não por mim assim te chamo?

José Régio